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quinta-feira, abril 29, 2004
Ontem, foi o dia do seminário do Fresnault, no DEA, lá em Fontenay ("Esthétique et Communication"). Prá variar, cheguei atrasado, de novo, e Pierre, em tom de piada, perguntou: "o atraso é prá vcs. brasileiros algum tipo de esporte?". Depois, bateu levemente no meu ombro (nunca ouvi falar que franceses fossem dados a este nível de enunciação corporal!!!) e me disse, baixinho: "não te aflijas, a aula ainda não começou, eu estava apenas te esperando".
A aula, como a outra que assisti, é muito interessante (tenho tido muitas idéias sobre como conduzir uma exposição de tipo mais teórico, à luz do estilo que adota para apresentar certos assuntos): desta vez, à propos de uma foto de Man Ray ("Le Violin d'Ingres", uma famosa, de uma garota nua de costas, tendo dois sifões de violino colados na altura dos rins), ele desenvolveu o tema da ironia e da colegem visuais, própria aos surrealistas, opondo o estilo do dadaísmo e do surrealismo, na fotografia, ao pictorialismo fotográfico do início do século XX, e suas idealizações sobre a artisticidade da fotografia.
Como já disse, tenho sempre a impressão, ao ver as aulas dele, do que poderia ser a experiência de acompanhar um Barthes falando sobre semiologia, na École des Hautes Études en Sciences Sociales: dá prá sentir que as questões que ele apresenta são muito interessantes, mas (pensando no que fazemos chez nous, à Bahia) penso que há um trabalho de metodologia a ser construído, para o qual este estilo de exposição ajuda muito pouco. Acho que ele tem muita cultura, mas pouco método: a cultura dele ajuda no propósito de decifrar as imagens, mas pouco ajuda no firmamento do que chama de sua "iconologia" (num sentido mais próprio que o e Panofsky).
Neste sentido, Chateau parece ser mais interessante do que Fresnault: por outro lado, entretanto, Pierre é o sujeito que está mais pregnantemente ligado às questões de meu grupo (terminei agora a leitura de seu capítulo sobre quadrinhos, em "L'Eloquence des Images" e é algo de muito especial).
Enfim, acho que teremos que levar os dois prá Bahia, de algum modo.
Depois da aula, vendi finalmente a timdez destes ?ltimos dias e encetei uma conversa mais demorada (deve ter durado uns 5 minutos), falando de meu interesse em intervir no DEA e no CRI e sobre os temas que tenho desenvolvido em minha pesquisa. Ele propôs que seria mais interessante que eu intervisse primeiro no DEA (com alguma questão mais pontual, e análise) e depois, no CRI (com algum problema de fôlego mais teórico), tudo isto em função dos públicos e cada um dos espaços. Propôs também que eu deixasse prá fazer isto no próximo semestre, pois seria mais proveitoso, inclusive prá ele.
Concordei, de pronto, e falei das idéias que tinha para a primeira intervenção, uma análise da fotografia, buscando identificar no nível de seu iconismo mesmo os elementos que lhe conferem o valor de testemunho das ações (em oposição às teses que inscrevem este valor, na fotografia, pelo aspecto do dispositivo tecnológico de base). Ele achou a tese interessante, e, prá minha surpresa, difícil de demonstrar: eu retruquei que certas vertentes da história a arte poem ajudar no problema, e ele acedeu, dizendo que "c'est vraiment une bonne question a explorer. bravo!"
Segunda-feira foi dia do seminário do CRI, lá na Sorbonne: passei a tarde inteira fichando e textos e, quando me dei conta, já eram quase cinco e meia (o seminário é às seis) e eu nem tinha tomado banho, nem nada. Corri feito louco, prá chegar lá, esbaforido, mas alinhado, às 6:15, com a apresentação de uma garota belga (orientanda do Fresnault), já engatada à toda. Era uma fala sobre retórica visual, tomando como pretexto a ideologia anti-comunista do cinema americano dos anos 50 e 60, muito especialmente um filme B sobre garotos extraterrestres que dominam uma pequena cidade americana, pelo uso de poderes telepáticos.
Quando a exposiçào terminou, Chateau pediu a palavra; Fresnault perguntou se ele tinha perguntas, e ele disse que não, apenas críticas: desceu o cacete na menina (evidentemente, com grande "finesse"), falando da simplificação que ela havia operado da questão dos valores retóricos da imagem no cinema (a noção de "retórica visual" só tem propriedade em contextos de tensionamento ideológico?). Além do mais, como apreciador do cinema americano, ele considerava que a caracterização do discurso fílmico hollywoodiano pelo espectro do entretenimento e da ilusão era francamente redutora (do mesmo modo que a imagem que ela fazia do cinema soviético do mesmo período, como sendo exclusivamente propagandístico) e que, no fim, prá demonstrar o ponto que queria, a garota sequer precisaria ter se valido da idéia de retórica visual, por demais sofisticada, do ponto d evista da análise, para os propósitos dela (neste caso, bastaria ter recorrido à uma sociologia do cinema, prá fazer a mesma coisa).
Me lembrou muito as boas falas de Wilson no grupo de análise fílmica.
Em seguida, veio Bernard Darras, prá falar e semiótica e ciências cognitivas, a propósito da questão da gênese das imagens no cortex cerebral, aqueles papos tipo puc-sp. Fiquei meio decepcionado, prá dizer a verdade: já tinha visto o sujeito num site da Maison des Sciences e l'Homme, falando de cognição e semiótica, mas tendo por objeto questões de representação na arte e na pintura, especialmente. Não houve debate, em seguida, como era de se esperar, mas apenas alguns "remarks", meio que prá salvar a situação (Chateau, por exemplo, falando da necessidae de se complementar este tipo de abordagem com as questões que interessam mais de perto o olhar sobre materiais artísticos e expressivos, touché!!!).
Mas, a impressão mais forte que ficou em mim foi a de minha atitude, no seminário, meio diferente do que sinto que seria se eu estivesse num centro de pesquisa americano, inglês ou canadense. É o problema do domínio da língua francesa: fico excepcionalmente intimidado prá intervir em debates nos quais me inscreveria quase que instantaneamente; consigo entender cada vez mais o que cada um diz, mas o nível de concentração que esta compreensão me exige é absurdo, quase me exaure prá falar qualquer coisa, sem contar o medo de intervir efetivamente e dizer alguma coisa de incompreensível...acho que é uma sensação comum a alguns que provavelmente leiam este diário. Talvez no fim do ano, eu esteja melhor e dê risada disto, mas por hoje fiquei preocupado...
Chegando em casa, pegei meu texto em francês e fiquei lendo em voz alta, imaginando que partes dele eu poderia apresentar em um ou outro seminário possível...
domingo, abril 25, 2004
O Belo Natural e o Belo Arquitetônico
Falei outro dia que, saindo da Sorbonne, no final de um seminário, dei de frente com o Panthéon, num final de tarde. Lembrei um pouco da impressão que eu sempre tenho quando vou ao Rio, e vejo aquelas montanhas de pedras e de árvores, e me dei conta das diferenças entre nós e eles. Na falta de melhor definição, pensei na idéia kantiana do belo natural e do belo artístico: porque, topograficamente falando, Paris é como Brasília, um grande plateau, vale mesmo é pelo que o homem coseguiu pôr, aqui e lá.
As diferenças com Brasília, de todo óbvias (sobretudo prá quem não gosta desta), são sobretudo duas: nossa capital foi feita prá ser um monumento e, além do mais, construída de uma vez só, enquanto tal; por outro lado, o caso de Paris já nem é mais de beleza, do ponto de vista arquitetônico, mas de sublimidade mesmo. Eu e Betti, outro dia, procurando uma loja de artigos esportivos, topamos com a Madelaine (pros que não sabem, um monumento laico, construído para a glória da República, por ordem de Napoleão). Quando vc. vê o prédio (que foi concebido como um templo grego), muito de perto, saindo da estação do metrô, a noção do que é grande ou do que é pequeno te escapa, por um momento. Na medida em que vc. vai se afastando (andando na direção de Concorde, por exemplo), e olha prá trás, as dimensões se normalizam, mas o templo fica agora mais parecido com uma pintura, posto à distância, meio irreal.
É só um exemplo, mas que se reproduz, a cada vez que eu chego perto de um destes marcos: o Panthéon, a Torrre Eiffel. O engreçado é que, aqui, este fenômeno se instaura sempre a partir de um motivo arquitetônico (ou artificial). Como dizia, quando vou ao Rio, vejo a exuberância da natureza, misqüindo-se com a arquitetura do lugar, tenho a mesma sensação de irrealidade desta visão (de perto, transbordando as noções de medida; vista de longe, parecendo-se com uma representação, um simulacro).
De qualquer sorte, é uma experiência de tirar o fôlego.
quarta-feira, abril 21, 2004
Paris, capital do cinema
André já havia me advertido, mas é sempre bom saber das coisas por experiência própria: se tem alguma coisa que vc. vai pode fazer muito em Paris é ver filmes; filmes de todo tipo, de todos os lugares, para todos os gostos, em todo tipo de cinema (dos mais suntuosos e nababescos aos mais recônditos e improváveis). Só prá que se tenha uma idéia, o "figaroscope", que é um caderno semanal com a programação cultural da cidade, tem umas dez páginas com a programação de cinema da cidade. dez páginas!!!!!
Desde que chegamos, vimos muita coisa, isto é, no tempo que dá prá ter prá pegar um filme: pois bem, logo que chegamos, ganhamos da fundação kastler (uma fundação que ampara os pós-doutores na cidade nos trâmites burocráticos da chegada) uma caneca pro café, um guia da frança e dois ingressos na cadeia de cinemas da ugc. Como não sabemos quais salas estavam ligadas a esta cadeia (quem sabe, as salas de algum presídio...), estamos com os bilhetes na mão até agora (eles valem até o fim de julho, se não me engano).
Entretanto, nada disto nos impediu de ver filmes, nestas três semanas: fomos ver "agents secrets", com o casal 20 daqui (monica belucci - ai, ai - e o vincent cassell, um feio charmoso, feito todo francês que se preza), que eu escolhi prá treinar o francês: não entendi patavina do que eles falavam, mas como era filme, entendi tudo (repetindo: entendi o filme, mas não entendi os diálogos). Meio inverossímil: de saída, trata-se de uma ação sobre a espionagem francesa (ficção científica, portanto: espião francês? aonde? nem na argélia...). Bem acabado visualmente, mas é só. Esquecível, como 90% do que se vê em cinema hoje.
De francês mesmo, estamos loucos prá ver "Immortel", baseado numa trilogia de bande dessinée muito famosa aqui, "Nikopol", de um tcheco (se não me engano) Enki Bilal (que também dirige o filme. Ao que parece, o filme se baseia no segundo episódio da dita (tou tentando encontrar aqui, mas tá difícil): ele faz parte de um grupo de desenhistas que tem uma editora de quadrinhos, a "Les Humanoides Associés", e os materiais deles são bárbaros. Meu problema ? acompanhar o francês dito em filmes (mais ou menos como o das ruas, e bem diferente do das salas de aula, em geral infestadas de estrangeiros). mas veremos e direi o que achamos.
Outro francês que queremos ver é o último do Jean-Jacques Annaud ("Quest for Fire", "The Name of the Rose", "The Bear"), que se chama "Deux Fréres", e que é a história de dois tigres selvagens, irmãos, que são separados, de súbito, quando um deles é sequestrado e levado para um circo: neste, o francês não imporá, decerto, dificuldades (o Annaud é dado a este tipo de aventura, contar fábulas quase sem o recurso de palavras). Quero ver se o filme ainda estará em cartaz quando Bernardo vier, em julho, pois quero levá-lo prá ver.
Mas estava falando dos filmes que vimos: num cinema na Rue des Écoles, bem pertinho da Sorbonne, tá passando um festival de filmes do Elia Kazan, durante a semana: fomos ver, logo no primeiro dia, "On the Waterfront" (no Brasil era "Sindicato de Ladrões", e aqui ? "Sur les Quais"). Já vi milhares de vezes, mas coisas boas são assim, se renovam a cada nova espiada: ver o Brando no auge da forma física e dramática, em 1954, é muito bom. Até esqueci que tinho lá também prá ler as legendas e treinar leitura rápida (passou batido...).
Também estamos adorando ver documentários: bem no primeiro fimk de semana na cidade fomos ver "The Agronomist", de Jonathan Demme sobre um agronomista haitina, Dominique Baptiste, que virou radialista e um dos maiores símbolos da resistência democrática, na época do Papa e do Baby Doc. Um pouco sentimental, meio próximo demais da figura (o Demme era amigo do cara, levou anos filmando ele, além do mais o sujeito morre no meio do filme).
Tem um cineminha aqui pertinho, o Entrepot, que tem uma programação fantástica - vimos um documentário sobre o Derrida, de uns californianos doidos, e que narrava as desventuras do sujeito e da mulher dele na América, com algumas cenas dele dando aula, na França, em Nova Iorque na Califórnia. O sujeito é muito estanho, mas o documentário consegue extrair coisas interessantes dele. Vamos ficar atentos à programação deste lugar: na semana que vem, tem um filme sobre Chomsky e as media, ueba.
E ainda tem o último do Jarmusch, "Coffe and Cigarettes"...
quarta-feira, abril 14, 2004
Por que é que não consigo deixar de me concernir?
Pois é, ainda ontem, no meio de minha rotina matinal (falo um pouco sobre ela em outra oportunidade) me deparo com uma preciosidade, em minha caixa de e-mails, a saber, um documento da direção da Faculdade, dando conta dos critérios para a distribuição dos gabinetes de professores (é uma pena, a página da Faculdade tá fora do ar, eu não estou podendo acessar a tal "Rede Facom", e mostrar aqui o tal documento).
Só prá encurtar a história, a tal resolução da Congregação (sou capaz de apostar que, se teve estômago prá estar lá, Jeder certamente foi voto vencido, junto com Pedro e aquela outra garota, representantes discentes) discriminava entre professores que têm cargo de direção e os que coordenam laboratórios ligados a disciplinas, concedendo aos últimos a possibilidade de ter acesso aos gabinetes, mas não aos primeiros (sob a alegação, estúpida de que a direção e a coodenação têm melhores salas, c'est absolutement fou, vraiment drôle).
Incontinenti, pus-me a compor uma mensagem, a mais elegante que eu pudesse conseguir, disputando estes tais critérios. Vejam o que consegui:
----- Mensagem encaminhada de benjamin@ufba.br -----
Data: Wed, 14 Apr 2004 09:23:37 -0300
De: benjamin@ufba.br
Reponder para: benjamin@ufba.br
Assunto: [Facomdoc] critérios de distribuição dos gabinetes aos docentes
Para: facomdoc
colegas faconianos,
gostaria de fazer certas considerações, de público (e aqui de longe), sobre os
critérios definidos pela direção da faculdade para a distribuição de salas
destinadas aos gabinetes dos professores, divulgados recentemente em boletim
oficial da direção da facom.
muito especialmente, gostaria de disputar os critérios pelos quais se definiu,
nestas regras (manifestas num documento aprovado na congregação da faculdade),
que professores que ocupam certos cargos (a saber, a direção e a coordenação da
pós-graduação) não poderão reivindicar tais gabinetes, em razão das condições
espaciais já oferecidas pelos locais da coordenação e da direção.
posso dar meu testemunho, na condição de ex-coordenador do programa de pós-
graduação em comunicação e cultura contemporâneas, sobre a total
impossibilidade de emprego da sala da coordenação para as finalidades próprias
a um gabinete de professor.
em primeiro lugar, não há como se instalar, naquele espaço, a infra-estrutura
(sobretudo em termos de mobiliário) necessária ao atendimento estudantil, à
orientação acadêmica e aos estudos, que são as atribuições precípuas de um
espaço como este.
por outro lado, supor que o espaço de uma coordenação (assim como o de uma
chefia de departamento ou direção), com os níveis de demanda que lhe são
próprios (telefonemas constantes, demandas de informações, atendimentos
admnistrativos), seja minimamente preparado para servir às funções de gabinete
me parece algo de descabido.
a decisão que a congregação da faculdade tomou em relação a estes gabinetes me
parece explicável apenas em razão das dificuldades com as quais a
direção está decerto defrontada para oferecer a todos os docentes as condições
mínimas para seu trabalho. entretanto insisto que, se assim as coisas se
explicam, ainda assim não se justificam.
penso que os critérios para a resolução desta questão (que afetam a vida de
todos os docentes da escola, indistintamente) deveriam ser inspiradas por outro
tipo de princípio: um que, ao invés de impedir que pessoas tenham seu acesso a
este tipo de espaço, o franqueasse a todos.
acho, por exemplo, que seria mais aceitável que cada uma destas salas abrigasse
mais do que dois ou três professores (de modo a que estes pudessem negociar
entre si a melhor "ratio" de sua ocupação) do que estes critérios de
discriminação entre professores, e que favoorecem mais às tensões e
iniquidades, do que a efetiva consolidação de um ambiente de trabalho e de
respeito profissional na escola.
ad,
josé benjamim picado
Bom, mas até aqui, da escola mesmo, apenas Jonicael reagiu à minha intervenção. Vejam só:
----- Mensagem encaminhada de jonicael@ufba.br -----
Data: Wed, 14 Apr 2004 08:26:46 -0300
De: jonicael@ufba.br
Reponder para: jonicael@ufba.br
Assunto: Re: [Facom-l] distribuição dos gabinetes dos professores
Para: benjamin@ufba.br
Concordo plenamente com esta sua posição.
Reivindiquei uma sala, mas fui negado.
A prática da exclusão social está plena na Facom
Aliás, o Laboratório de Rádio até hoje não nenhum equipamento, apesar do
espaço ser reduzidíssimo.E, quando tiver, farei da sala de coordenação um
estúdio de prdução e emissão em rádio e radiojornalismo.
jonicael cedraz
Eu mereço...prá ver se fico em silêncio.
Agora, prá falar um pouco do que estou lendo (e que, imagino, possa interessar uns poucos): já falei do livro do Fresnault, "L 'Eloquence des Images", que é o únco que estou fichando, no momento. Mas leio também dois outros, ao mesmo tempo (como não fazia, em muitos anos): o primeiro é de Rosalind Kraus, professora de história da arte, em Columbia, "Le Photographique: pour une théorie des écarts", um pouco militante (ela é editora da "October", uma revista importante de história da arte moderna), e meio repetidora dos jargões barthesianos e foucauldianos, aplicados (nem sempre com propriedade) à história da fotografia.
O outro é um que eu estava paquerando a muuuuito tempo, conhecia de referência, mas nunca houvera tido em mãos: é "Le Bouclier d'Achille: théorie de l'iconicité", do Dominique Chateau, daqui da Paris 1 mesmo (é o diretor da Escola, acho que já falei dele). Digo porque gostei: porque parece comigo!!!! É bom encontrar alguém que fale de algo que vc. sinta ser tão pertinente, mas de um jeito que te força sempre a voltar naquele parágrafo, uma, duas vezes (uma terceira prá sublinhar a passagem). Isto não obstante, já engoli o livro inteiro (não é longo, 123 páginas), neste vai-e-vem todo, num só dia.
Vou adotar como referência, e fichar com muito carinho.
Semana Santa ou Quinzena Santa?
É fato que já sabíamos de antemão que, chegando à Europa nesta época, não há muito o que aproveitar, em termos de aulas e seminários (está quase tudo no fim, no ritmo de final de semestre, que conhecemos bem, vindo do lado de baixo do Equador).
Mas assombra, ainda assim, a noção que os sujeitos daqui têm do que seja "feriado". Digo o porque do assombro, prontamente: no Brasil passamos pela Semana Santa, que, com raras exceções, nos toma, no máximo, um pedaço da quinta e, a partir daí, até o domingo. Aqui não há nada disto: quinta e sexta feira passadas, tivemos atividades normais, durante todo o período.
O problema é que, desde segunda, dia 12, até o dia 23, sexta-feira, não teremos atividades na universidade:
quinze dias de feriado, sem nenhuma razão aparente!!!!!
(Óquei, óquei, já tô vendo os culturalistas e relativistas de plantão dizendo "não fiques bolindo com os hábitos culturais dos outros!"): mas quinze dias de feriado, no período de final de semestre, é um pouco por demais prá minha santé!!!
Ainda bem que, ao menos as bibliotecas públicas (especialmente o Beaubourg e a Nationale) continuam funcionando, porque senão, só comprando livros e levando prá casa. Quinzena santa...é mole?
domingo, abril 11, 2004
Ontem, fomos ao Beaubourg, no Centre Pompideau, ver o que a biblioteca de lá poderia ter de interessante: uma fila imensa às 10 da manhã de sábado (eu achava que todos tinham ido viajar...), mas entramos logo e, no terceiro andar, ficamos lá esmiuçando a biblioteca de artes. Muita coisa interessante, inclusive uma midiateca, com tudo o que se possa imaginar em termos de acervo de imagens (Betti ficou vendo uns vídeos de dança, e eu, semana que vem, vou ver se eles têm programas de televisão, tipo "Apostrophe", prá treinar a escuta do francês).
De minha parte, andei pelo setor de periódicos e por três coluninhas de uma estante de história da arte e estética: deu prá encher umas três páginas de meu bloco de notas, com referências interessantes, prá ler e anotar depois. Já vi que vou ficar mais tempo lá e na Bibliotéque Nationale, do que nas bibliotecas universitárias (ao menos a da Pars 1). E olha que nem falei do segundo andar, de filosofia e ciências humanas, ooh, la, la...
Saindo de lá, umas quatro horas depois, meio zonzos de fome, paramos na loja da Flammarion, onde deixei alguns ricos euros, em troca de um cd triplo com o "adecedaire de Deleuze" (é engraçado o jeito como pronunciam o nome dele, aqui: algo assim como "d'louze"). Trinta euros que ainda não sei se bem gastos, mas que, por enquanto têm valido pelo bônus, no terceiro cd, com uma conferência dele em Femis, em 1987 (logo depois do lançamento de "L'Image-Mouvement"), em que ele fala do ato da criação, no cinema, na literatura e na filosofia (só na última, diz ele, pode-se dizer que há criação des idées,
parce que les idées ne sont pas quelque chose de courant ou d'ordinaire. Ça serait donc ridicule d'attendre q'une mathématicien, par exemple, en pourrait crées, au millieu des ses calculs logiques). Maravilha!
Já o tal abecedaire... parei na letra "A", de "Animal": numa certa altura, ouvindo as divagações do dito, enquanto tomava seu banho, Betti gritou, lá do box: "mas que papo mais oreba é esse aí? esses sujeitos fumaram o quê?!" Esperançoso de ver algo de redentor nas letras seguintes, dou em "B" comme "boire" (e por que não Bergson?), até Z como "zigzag" (!?). Pouco animador, a não ser pelo C (Culture), I (Idée), K (Kant), L (Litterature), N (Neurologie), P (Professeur), W (Wittgenstein). Enfim, quando cobrir o dito, dou notícias de minhas impressões.
A demain, ou apés...
quinta-feira, abril 08, 2004
Acho que vou parar de correr atrás das histórias de uma semana atrás, senão vou escrever mais do que os rascunhos do livro de "Exodos". Melhor talvez me fixar no que está acontecendo imediatamente (André já reclamou que eu escrevo demais e que ele tá tendo que fazer leitura diagonal de meus posts). Uma coisa mais telegráfica, portanto. E mais atual. Por exemplo, agora eu estou escrevendo. mas talvez devesse estar dormindo.
"Bôf", diriam os franceses.
Cite' Universitaire, 31 de março de 2004
Hoje de manhã, despencamos eu e Betti lá prá Saint-Denis, ela prá assistir um curso de curta-duração sobre abordagens antropológicas da dança contemporânea, e eu, prá ver se encontro Jacques Morizot, que tem aula às 11:30. chegamos às 09:00 (por causa da aula de Betti), e eu fiquei zanzando pelo prédio, procurando pela tal sala A1169. Finalmente encontrei a dita, e montei guarda lá, com o indefectível livrinho em mãos prá fazer-me companhia (neste dia era o bom e velho Fresnault-Deruelle, "L'Eloquence des Images"), e bem lá quando eu já estava na altura da discussão sobre a retórica visual dos "affiches" eleitorais, eis que entra ele pela sala, já todo aprumado prá começar a aula.
Me apresentei, disse que vinha do Brasil, que era professor de estética da comunicação, e que estava cumprindo meus estudos pós-doutorais com o Fresnault e o Chateau (ele os conhece, e pareceu apreciá-los). Então perguntei-lhe sobre a possibilidade de tomar parte nos seminários que ele estiver coordenando e ele, muito gentilmente, me deu logo a data: "mardi prochain, le 7 d'avril, 9 heures, et je vous attenderai lá".
Saí feliz da vida: de novo, uma acolhida gentil, o sujeito pareceu interessado no que faço (na nossa conversa, pude falar um pouco doque fazia, da análise das imagens, comênfase na fotografia e, sobretudo, a importância das abordagens de Goodman - de cuja obra em francês ele é um dos tradutores e comentadores mais visíveis) e, encontrando-me com Betti e as meninas (Isa e Lia), fui gozando mais esta pequena conquista aqui. Chegando em casa, verifico a agenda e, pasmo, me dou conta de que mardi é 6 e não 7 de abril. Pronto. Prá que se tenha uma idéia, uma ida daqui da cite' até Saint-Deis e', contada no relógio, uma sólida hora de viagem, só de ida: uma hora e duas trocas de linha (do RER pro metrô e depois de duas linhas de metrô, e uma das trocas, em montparnasse, e um bom passeio a pé subterrâneo, numa estação imensa, com a única vantagem de poder andar numa esteira rolante que faz 9 km por hora).
E isto é só a ida.
Bom, como diz Sossó, antes ter que fazer este percurso todo entre a Cite' e Saint-Denis, comendo um croissant, do que na 14a DP de Pernambués, comendo sanduíche de vento e bebendo Tubaína, n'est pas? pois bem, arrisquei o dia 7, por alguma razão estranha (ah, lembrei, porque eu sabia que era o dia da aula dele, e que, se eu falhasse, ao menos poderia encontrá-lo novamente, e continuar a conversa). Bem, não era o dia 7, mas mardi, 6 de abril: não teve problema. Entrei na Biblioteca central da Universidade (que é muito melhor da que a da Paris 1, em Fontenay, e que Fresnault já tinha me previnido que era "moins que ridicule") e fiquei lá, misturado no setor de periódicos deles, que tinha quase tudo que eu pudesse querer ou imaginar, e, bem, às 11:30, toquei de novo prá sala de aula do Morizot, prá encontrar ele no mesmo lugar, na mesma disposição (e acho até que com a mesma roupa) de uma semana atrás.
Me reconheceu na hora, perguntando por que eu não tinha ido. Expliquei que havia confundido as datas, me esforçando por não dizer que ele tinha me confundido (além do mais, nem tinha dito qual era a sala!!!). Ele disse que tinha muito interesse em saber o que se praticava em termos de pesquisa em estética no Brasil, e eu disse a ele que a minha experiência era meio específica, pois eu não ensinava num departamento de filosofia, o que pareceu deixá-lo ainda mais animado. "Pois então é que eu quero mesmo que você possa falar pros meus alunos, no DEA e no Seminário". *!&%$!!! (tentativa de traduzir, "peu ou prou", o que passava pela minha cabeça). mas, de novo!!!!???
Qual é a desses sujeitos aqui? Betti, que, nessas horas, é dada a desdramatizar (por influência de Isa), acha que os franceses não gostam de trabalhar, e ficam querendo que estes "chercheurs" tomem o lugar deles (os bugres ainda ficam depois tirando onda de que deram aula na França, blah, blah, blah). Bom, seja o que fôr, tem alguma coisa muito estranha acontecendo com esta nossa chegada aqui: particularmente acho que é a proximidade das férias (aliás tenho uma tese sobre isto, mas fica prá depois).
terça-feira, abril 06, 2004
Cite' Universitaire, 30 de marco de 2004
Hoje `a tarde fui assistir a aula do DEA de Fresnault-Deruelle ("Esthetique et Communication"), e pegar as coisas que haviam sido enviadas pra ele, em meu nome (na verdade, um pacote da Fundacao Kastler, que providenciou minha reserva na Maison do Bresil, com guias da cidade, caneca, carteira de chercheur - serve pra nada! - e outros badulaques). Bom, o semestre aqui esta' quase no final (pelo cronograma que ele exibiu no início da aula, parecem faltar apenas quatro datas, até o dia 18 de maio) e, pra' variar, ele cometeu a gentileza de gastar uns bons dez minutos da aula recapitulando tudo o que haviam feito no semestre, aparentemente apenas por minha causa...
Bom, o topico do curso, como um todo, parece ser o de oferecer aos estudantes alguns exercicios de analise de imagens, com base em algumas das questoes que parecem importantes, ao menos para ele (Fresnault). Me dou conta, agora que estou relendo o livro dele (L'Eloquence des Images), que este parece ser mesmo o modo de aproximacao dele ao problema do discurso visual, e que reproduz um certo estilo barthesiano. Com isto quero dizer que ele nao parece preocupado em justificar as analises que constroi, do ponto de vista mais metodologico, mas apenas da perspectiva do repertorio cultural que ele certamente possui para este exercicio: isto quer dizer que, feitas por ele mesmo, as analises funcionam muito bem, mas tomadas enquanto modelo, nao se prestam a muita coisa (eu precisaria ter o mesmo repertorio cultural que ele pra chegar a exercita-la, naqueles termos).
Dai' um certo incomodo com as margens teoricas deste exercicio, ou com a falta delas, no caso de Fresnault: na aula, precisamente, ele falava do tema da "chegada" (ou de temas correlatos, como os da "intrusao", "invasao", "espreita", "irrupcao") na representacao visual, usando exemplos os mais variados, da pintura ao desenho e aos quadrinhos (Gainsborough, Herge', Tardy e Kubin), pra' falar de uma especie de co-genialidade entre o "recit des images" e a catastrofe. O modo de ele referir-se ao problema era bem interessante, mas penso (e anotei isto) que ele poderia muito bem ser suplementado por questoes postas na historia da arte, como a da construcao do sentido discursivo nas imagens pictoricas (desde Lessing ate' Gombrich); quer dizer, remontar a questao analitica a certos marcos teoricos de discussao, pra dar uma certa legibilidade ao exercicio analitico.
Evidentemente, me contive em colocar estas questoes pra ele, ao fim da aula: seria, no minimo, indelicado e, no limite, imprudente, nesta altura do meu vinculo com o povo daqui. mas acho que estas questoes aparecerao, talvez, no momento em que for expor meus assuntos pro grupo.
Ao fim da aula, ele perguntou-me, em publico, se eu considerava aquele assunto absolutamente estrangeiro, ao que respondi que nao, absolutamente; muito menos o fato de ser em frances...falamos rapidamente apos a aula, e pedi a ele dicas pra minha melhor insercao `a Ecole: ele sugeriu que eu procurasse fazer uma primeira exposicao, no proprio curso de DEA dele (eu poderia escolher o tema que desejasse), e que poderia ser ainda neste semestre. Fiquei de dar uma resposta: acho que analise daquela imagem de Bradshaw, e a discussao sobre a modelacao pictorica do olhar testemunhal na fotografia poderia ser um bom ponto de partida (o texto já' ta' prontinho, em frances). Ele disse ainda poder dispor a mim de todo o arsenal para a exposicao, incluindo alp-top e data show (ouehhh!).
Acho que vou escolher uma data em maio. Quero tirar esta quizumba a limpo ainda neste semestre.
Cite' Universitaire, 29 de março de 2004
E nem falei de minha primeira visita ao seminário do CRI: depois de todas as aventuras entre Fontenay, Madame Ferranis e a Prefeitura de Policia, ainda tinha que arranjar disposicao pra' tocar pra' Sorbonne, e ver o seminario do CRI (Centre de Recherche sur l'Image). Zanzando pelos saloes do espaco, consegui, de algum modo, achar a sala, pra' encontrar o povo la', ja' reunido, acompanhando a exposicao de uma doutoranda australiana, sobre o discurso visual na composição de mapas. O tema nao parecia muito interessante, mas foi bom constatar duas coisas: meu frances nao esta' tao mal assim, pois eu consegui ter uma compreensao bem razoavel do que se discutia ali; por outro lado, fiquei com a impressao de que o pessoal que vem da formacao semiotica e semiologica parece meio perdido, do ponto de vista teorico (impressao que ficou mais forte um pouco mais tarde, e eu falo disto depois).
Ao fim da apresentacao e das discussoes, fui ter com Fresnault e fui novamente surpreendido, ao me apresentar. Ao ser apresentado a ele por Chateau, o dito quase me abacou, pronunciando meu nome com aquele oxitono frances ("Monsieur Picadoh, enfin Picadoh"), e me disse que tinha um pacote enorme na sala dele, que tinha sido enviado pra' mim pela fundacao Kastler, e que eu fosse ter com ele na terca feira. Eu respondi que iria, e que gostaria de poder assistir as aulas do DEA, e ele, solicito disse que poderia assisti-las, mas tambem da'-las, se eu assim quisesse...
Quando sai' da Sorbonne, pelos fundos, dando de cara com o Pantheon, num fim-de-tarde ainda ensolarado, às oito da noite (!!!!), depois de tantas gentilezas (ou do que penso terem sido gentilezas), achei que estava vivendo um sonho, estranho de tao gostoso...ser reconhecido por pessoas que vc. ja' leu, menciona em seus cursos, e ate' chega a admirar eventualmente, a ponto de elas confiarem a vc. seu espaco de poder (nao sei se estou interpretando as coisas corretamente, e este e' o problema de escrever diarios, vc. reflete ao mesmo tempo em que escreve e, na maior parte das vezes, se engana). O fato e' que lamentei nao ter uma ficha de telefone pra' ligar pro Wilson ou pro Andre' pra' contar da experiencia que tive, ate' aqui a mais legal deste periodo de menos de uma semana deste americano em paris.
A suivre.
Cite' Universitaire, 29 de marco de 2004
Preciso correr com este diario, pra acertar as datas (to escrevendo no dia 6 de abril!!!!)
Pois bem, pra todos os efeitos, hoje e' uma segunda-feira, e la' me fui serelepe (com Betti 'a cote, que eu nao sou fou) pra' Fontenay-aux-Roses, na Paris 1, conversar com Dominique Chateau, o diretor da Ecole Doctorale en Arts Plastiques, esthetiques et Sciences de l'Art, pra ver se resolvia o problema da definicao de meu maldito estatuto de vinculo com a escola. Me lembro bem dele, no congresso de Semiotica Visual, la' no Quebec (ao menos pra isto serviu aquele congresso!!!!): ele parecia um quacker, ou ainda um amisch, daqueles de "A Testemunha" (do Peter Weir, com o Harison Ford), com uma barba toda estilizada.
Quando o identifiquei no corredor, chamei por ele e, tao logo me apresentei, ele foi todo caloroso (parecia ate' que ja' estava me esperando), e me cobriu de cuidados e gentilezas, nos levando pro gabinete e ouvindo, prestativo, todas as minhas queixas; fez, de proprio punho (sem pedir 'a secretaria nem nada) uma declaracao, atestando meu vinculo, como "estudante em estagio pos-doutoral" (pra nao conflitar com a natureza do visto que eu tinha do consulado). Me disse tambem que Fresnault-Deruelle queria muito falar comigo, e que teria um seminario ainda na segunda-feira, e que se eu quisesse aparecer era muito bem-vindo.
Ficamos eu e Betti olhando um pro outro, meio atônitos com a extrema gentileza dele: eu disse a ele que me lembrava de uma discussao amistosa que eu houvera presenciado entre ele e Herman Parret, a proposito da estetica de Kant (ambos sao especialistas nela, pelo que sei), e ele me respondeu que aquela discussao havia gerado um coloquio internacional sobre figuras da natureza na arte, ainda no ano passado (merde!). Perguntei se podeia assistir os seminarios dele, no DEA (sobre experiencia est?tica e experi?ncia artistica), e ele respondeu: "mais non: ca c'est tres elementaire pour vous, je pense", e sugeriu que eu tomasse parte num seminario pos-DEA que ele coordena, mas que nao tem calendario fixo. Trocamos e-mails e prometemos nos encontrar mais tarde, no seminario do CRI (Fresnault), na Sorbonne.
Tocamos pra' nossa querida Madame Ferranis, com a carta do Chateau em maos, pra saber duas coisas: se poderiamos obter a minha carteira de estudante, com ela, e se este seria um documento com valor suficiente pra obtencao de minha carte de sejour. Resposta 'a primeira questao: nao posso ser reconhecido como estudante da Paris 1, e por duas razoes, a primeira porque nao estamos em epoca de inscricao e seria necessario fazer todo um dossier para minha admissao 'a Universidade, e segundo porque eu nao sou mesmo estudante. Eu sou mesmo e' "chercheur" (nestas alturas, diria "chercheur-lento").
Em seguida, pegou o telefone e ligou pra Prefecture de Police, com a minha carta em maos, e comecou a expor meu caso pra figura, do outro lado da linha: do que deu pra entender, com meu frances, disse ela que o consulado tinha se enganado em me conceder o visto de estudante, mas de que eles deviam considerar o meu caso (dizia ela: "vcs. vao ver, o cara vai ai e nao tem nem cara de estudante, nem e' mais tao jovem assim...") e, ao terminar, virou pra gente e disse: "bem, esta' tudo resolvido, vcs. tem um rendez-vous na prefeitura, na proxima segunda, levem toda a documentacao e, em qualquer caso, me liguem de volta."
Isto tudo aconteceu no dia 29 e hoje, quando escrevo esta mensagem (dia 6 de abril), digo que ja' fomos 'a Prefeitura e, ao que parece, teremos nossa carta, sem maiores problemas (a nao ser que o exame medico descubra o meu lipoma, ou que eu tenho herpes). Entao outra licao que eu tiro desta coisa toda e' que na Franca, como no Brasil, parece que nao ha' qualquer sistema - basta estar com a pessoa certa, com o telefone por perto e, voila', tudo se resolve.
Que se aguardem os proximos capitulos.
domingo, abril 04, 2004
Cite Universitaire, 25 de marco de 2004
Carte de Sejour-Mode de Emploi
Antes de mais nada, esta e' uma looooonga historia...
Queria poder escrever um pouco no espirito de quem oferece certas dicas (supostamente muito preciosas) pra alguem que esteja chegando numa cidade relativamente diferente da sua: outro dia, um vizinho nosso, um doutorando de Antropologia do Direito na Ecole des Hautes Etudes, tava dizendo que a populacao estudantil da cidade e' quase metade da populacao de Paris (o que explica um bocado de coisas, por exemplo, o maio de 68).
Mas meu maior assombro em relacao a este dado era o do volume de estrangeiros que ocupam a cidade, por um tempo consideravel (portanto, nao como turistas, mas como permanentes, em regime de sejour temporario, por mais de tres meses): e' muita gente, e e' muita gente pra' ser administrada por uma cidade. Falo isto porque ainda estamos enfrentando uma pequena via-crucis, para a obtencao da famosa "carte de sejour", que e' oferecida pela (ou, diria, disputada contra a vontade da) prefecture de police da cidade.
Quando chegamos a Paris, pensavamos nos, na nossa imensa ignorancia: bom, temos um visto de um ano, vamos 'a prefeitura, com as cartas que temos, o passaporte, e , voila', nossa carte de sejour em maos, pra' andarmos tranquilamente, fazermos o plano de saude sem sobressaltos, e por ai' vai.
Bom, Isa, como sempre, cuidou de nos desiludir sobre a natureza de nossa tarefa: em primeiro lugar, a prefeitura nao concede o tal titulo, mas vc. deve arranca-lo das maos dela, com os melhores argumentos e documentos que puder oferecer; segundo, o meu visto de estudante conflita com o que a Universidade de Paris 1 declara que eu vim fazer (o unico jeito de contornar a situacao sera' o de fazer minha inscricao no DEA da Universidade). So pra' se ter uma ideia, eu vim ensinar no DEA, e teria que me matricular neste mesmo DEA pra' que a prefeitura aceitasse minha situacao.
O caso de Betti era menos grave, pois ela vinha mesmo como estudante, sob apoio de um acordo entre as duas universidades,e isto poderia ser declarado por alguma instancia da Paris 8. Mas o meu era mais complicado: meu visto nao era de chercheur (pergunte ao consulado frances no Recife o porque), nao ha convenio da UFBa com a Paris 1 e, pra' piorar as coisas, o semestre letivo ja' esta' quase terminando (como e' que eles vao matricular alguem fora do semestre regular?). Ja' da' pra' ter uma ideia de qual era meu estado de espirito na quinta-feira, meu primeiro dia em Paris, um nitido dia de inicio de primavera (um pouco frio e ceu claro, com um solzinho, meu tipo de dia favorito).
Na sexta-feira, tomando cafe na casa de Isa, mandei tudo 'as favas, e disse: vou pra' Paris 1 agora, tentar encontrar alguem (Chateau, o diretor, ou Fresnault-Deruelle, meu orientador), expor a situacao e saber o que podem eles fazer: eram 10 da manha, e chegando la', nao havia ninguem. Sexta-feira, 11 da manha, Paris, Franca, Universidade, e nao havia ninguem, nenhuma alma viva pra' me atender. comecei a achar que estava numa comedia algo famliar e, por alguma razao, pensei comigo: "bem, as coisas nao parecem tao ruins assim".
Foi quando topei com a secretaria da Ecole, Madame Dupuy, uma senhora altiva, muito ciosa de si, mas que inisitia em nao entender patavinas do que eu estava falando (e, nesta altura, eu ja' estava tendo que me conter pra' nao rir), me conduziu pro bureau de acceuil international da Universidade, numa outra parte da cidade, pra' falar com uma tal madame Ferranis. Fui la'. Expus minha situacao. Mostrei toda a dezena de cartas e documentos que tinha. Perguntei a ela apenas: serao suficientes pra' eu ter o tal sejour? J'en voudrait beucoup!!!!
Madame Ferranis nao perdeu a classe. Leu meus documentos, impavida. Tornou-se pra mim e disparou: por que vc. quer ser "chercheur"? Nao vejo vantagem alguma nisto!!! Atonito (pensem bem, estou tentando controlar minha propria histeria, estou tentando controlar o frances, que ja' vai se misturando com o ingles e o portugues, e ainda vem esta e me diz que eu preciso ser estudante, como diz meu visa), so' me ocorre dizer: madame, eu sou profesor, no Brasil, e ja' nao vejo tambem grande vantagem nisto: so' quero saber como e' que faco vossa instituicao me reconhecer enquanto estudante, ja' que o documento que eu tenho de vcs. diz que virei aqui pra' ser chercheur, pas etudiant. "Tres simple", diz ela, "basta uma declaracao do diretor de tua Ecole, especificando o periodo de tua estadia e dizendo que vc. sera estudante em estagio pos-doutoral".
Como dizia o velho Paulo Francis, no fim de sua vida, "waal"...
Aprendi algumas coisas nesta historia toda: a primeira delas e' a de que pos-doutorado e' coisa que nao existe, ao menos aqui na Franca. Nao serve, por exemplo, pra' convencer nem o consulado a te dar um visto de chercheur (que me evitaria todas as aporrinhacoes, e que ainda nao acabaram); toda a diatribe que eu estou tendo pra completar o dossier pra prefeitura de policia seria driblada com um simples visto de pesquisador (mas o consulado somente concede este pro sujeito que, estando aqui, vier a receber salario das universidades francesas pelo seu trabalho). Pos-doutor mesmo, este nao e' nada.
Ainda bem que estou falando destas coisas quando elas melhoraram um pouquinho: uma semana atras, cheguei a achar que nao ia conseguir ficar aqui, sem sequer ter ido 'a tal prefeitura. mas isto e' outra historia...e com outras licoes atachadas pra' aprender. A suivre.
Cite Univesitaire, 24 de marco de 2004.
Como nos instalamos na rede, aqui na Maison, apenas na ultima semana, volto um pouco no tempo, pra falar de nossa nossa chegada a Paris (to escrevendo no dia 07 de abril).
Se eu pudesse definir a viagem, seria algo como um voo tranquilo, mas daquela esp?cie de calma que se experimenta bem no olho de um furacao tropical: uma paz cercada de agitacao e contratempos por antecipacao. Sobretudo, me lembro de olhar para o meu relogio, quando o aviao comecou a taxear, pra decolagem, ainda em Salvador, e ele marcava 3:35 da manha (a saida estava prevista para duas horas antes, mas a operacao-padrao dos federais atrasou tudo). Parecia um prenuncio.
Uma vez la dentro, entretanto, tudo foi muito tranquilo, e mesmo na chegada a Lisboa, nao tivemos muito problema pra obter rapidamente uma conexao pra Paris.
Nossa preocupacao era com o que nos aguardava na Maison du Bresil, pois suspeitavamos que eles nos cobrariam o aluguel do mes em que nao estiveramos la (pois nossa reserva comecara no dia 1 de marco): pior que isto, Isa (que ja estava aqui) houvera nos advertido que eles poderiam cobrar pelo periodo em diarias, o que praticamente nos arrombaria financeiramente de chegada, na Franca.
Passamos eu e Betti um bom tempo pensando, discutindo e ensaiando o melhor modo de argumentar com o povo de la, pra nao sermos depenados (de qualquer modo, tinhamos a casa de Isa pra ficar, em ultimo caso). Minha maior preocupacao era a de que estavamos com muita carga e nao poderiamos ficar vagando daqui pra la, num fim de tarde provavelmente cheio de gente e de trafego na cidade.
Enfim, eles nos cobraram "apenas" o mes de marco (770 euros menos o que ja haviamos pago pela reserva do quarto), e nos instalamos, imediatamente. Betti, como de habito, nao se entregou ainda, e vive a maquinar a melhor maneira de contornarmos esta situacao e recuperarmos pelo menos a parte do que pagamos referente a marco, ao chegarmos a Cite. Ela ta animada com a possibilidade de oferecer cursos de Pilates pro pessoal aqui, e, no minimo, recuperar este prejuizo inicial com o pagamento das aulas (um dia, talvez, eu descubra um jeito de empregar algum talento meu, deste modo).
Queria poder mostrar o apartamento aqui (agora, sim, vou precisar de uma camera digital!!!), que e' mais ou menos o que eu pensava que poedria ser, em termos de dimensoes. Um pouco menor do que o andar de baixo de nosso ape, em Ondina, mas muito gostosinho e confortavel: pro que pagamos por ele, diria que foi um bom negocio vir pra ca, e nosso sentimento hoje e o de que podemos permanecer aqui ate o fim do periodo.
Ele ta todo equipadinho (so nao tem a televisao, e esta sendo um exercicio "zen" me abster dela por um tempo, mas Paris sempre ajuda com as alternativas!!!!), e a impressao que eu tenho e' a de morar num espaco que foi concebido pra ser um aviao ou uma espaconave (especialmente quando tenho que entrar no banheiro).
Como e primavera aqui, a noite demora muito pra cair, e nos, sem sono, estavamos loucos pra ver alguma coisa da cidade, relembrar algum lugar que houvessemos conhecido. Como da ultima vez que estivemos aqui, saimos ao acaso, pelo metro, imaginando o que poderiamos encontrar, parando numa estacao qualquer: saltamos no jardin de Luxembourg e tomamos um vinho com uma soupe a moignon num Cafe pertinho do Pantheon, o Le Cercle, que, bem, ja virou nossa lembranca favorita nesta primeira semana (ainda hoje pasamos na frente dele, e ficavamos gritando, dentro do onibus, feito loucos: "e' ele, e' ali, olha!!!").
quinta-feira, abril 01, 2004
Cité Universitaire, Paris,
01 de Abril de 2004
Crianças, je suis arrivé! Como prometido a vcs., estou começando, na forma de um blogger, a dar algumas notícias daqui das luzes, prá vcs. Penso em fazer deste pedacinho eletrônico um espaço pra comunicar as novidades, dar dicas, fazer comentários e falar das impressões de um (sul) americano em Paris. O nome do blogger é uma
hommage a George Gershwin, e a Paris, mesmo (como se fosse necessário...). Minha idéia é a de fazer um hebdomadário de nossas aventuras parisienses, e não só as acadêmicas...Espero que sejam de bom-proveito prá todos. Portanto, allons-y!!!
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