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quarta-feira, novembro 24, 2004
"Vous êtes dense"
Foi o que ouvi de todos, depois da exposição no seminário de Morizot. Caprichei na apresentação, pois o lugar merecia (como já disse, o Institut National de Histoire de l'Art é um dos lugares mais charmosos que conheci aqui, pertinho do antigo site da Bibliothèque Nationale, na Rue Richelieu, onde Walter Benjamin gastava seus dias lendo e escrevendo): abusei do
datashow deles, projetei imagens (o velho streaker de Twickenham, inclusive) e, muito embora tenha me apoiado um pouco excessivamente no texto (11 páginas, em espaço simples!!!!), tive a atenção de todos, o tempo inteiro (com a experiência de professor, a gente aprende a notar essas coisas...).
Fui aplaudido ao final da exposição: bem sei que pode ter se tratado apenas de um caso de
gentillesse, sobretudo em se tratando de um
étranger (os franceses têm esta paixão republicana pelos
expatriados), mas digo a vcs. que em minha experiência, em todos os seminários que tenho ferquentado, nunca vi expositores receberem aplausos. na saída, depois de arrumar as tralhas, todos me esperavam do lado de fora, querendo conversar mais comigo, e o comentário geral era a frase-título deste post, seguida de pedidos para ter a cópia do texto; seguimos para o café habitual que fazemos
après le séminaire, e lá, Morizot perguntou se eu tinha interesse em publicar o texto integral na
Revue Francophone d'Esthétique (que ele edita com o Jean-Pierre Cometti e o Roger Pouivet).
Quase caí duro, porque era extamente o que eu queria propor a ele: Morizot me disse que o número 3 da revista já tem um artigo sobre fotografia (do Patrick Maynard, um professor canadense, uma tradução de um capítulo do livro dele, "The Engines of Visualization", que é POR-RE-TA!). me disse também que eles planejam um número sobre estética e técnica, para o início de 2006, e que eu poderia entrar neste número, com meu texto, já que passo um bom tempo argumentando contra as teorias que implicam a significação da fotografia no nível de suas relações com a técnica (enfim, morizot parece propor que eu lançe meu texto à uma
snakepit, um buraco cheio de cobras venenosas:
ah, que c'est charmant!).
Conversamos também sobre as possibilidades de uma viagem dele ao Brasil, no ano que vem (ou, quem sabe, juntando com a ida de Dominic Lopes, que estou tramando pro início de 2006, organizar um Colóquio sobre questões de estética, imagem e comunicação). Quem sabe? Ele ficou animado...
Super.
A nota chata da manhã foi que não consegui fazer meu
baladeur mp3 funcionar para gravar a palestra.
zût!
segunda-feira, novembro 22, 2004
É amanhã o dia...
Pois é, mardi prochaine (também conhecido como
demain) é o dia de minha apresentação no seminário de Morizot ("L'Art de Définir l'Art"), no INHA, 9 da matina. se me perguntarem se estou nervoso, digo, com toda honestidade, "não, e este é justamente meu medo..."
Enfin, qu'on croisent les doigts.
segunda-feira, novembro 15, 2004
Caçando André em Paris
Decerto, todo mundo já estava sabendo que André (que também é Luiz, mas é só Lemos)estava de chegada a paris, pro aniversário do Maffesoli e do Gretech (o Grupo de pesquisa que ele criou com um bando de gente de tudo que é lugar do mundo, por aqui, quando fazia o Doutorado, e que foi por onde a história dele toda começou).
Eu mesmo fui me aprumando com as coisas do trabalho, prá poder vê-lo, o mais rapidamente possível, mas qual nada: passaram-se dois dias desde que ele chegou, e nem um telefonema prá dizer se tinha chegado ou não (ele estaria aqui no dia 10, acho). Resultado: bandeei-me pros lados da Sorbonne, prá ver se achava o sacripanta, mas só vi Juremir, falando sobre alguma coisa teoricamente polimorfa, e espirrando e tossindo muito com a poeira que sai dos tapetes e das paredes daquele prédio.
Sintomático.
No fim da manhã de sexta, já devidamente apresentado a Michel (que me interpelou no meio de uma conversa com Juremir, perguntando "quem é este brasileiro, que eu não conheço?"), e sem que ninguém me dissesse, com precisão, quando é que André estaria de volta, zarpei-me prá BNF, prá minha rotina de mapeamento de periódico e de cópias de textos interessantes; como o trabalho tomou menos tempo que o esperado, ainda pude voltar ao Quartier Latin, prá ver se encontrava finalmente, a estrela da festa.
E lá estava ele, pimposo, no meio de umas 15 pessoas, numa mesa em homenagem ao velho Maf (como eles o chamam, carinhosamente). Combinamos um almoço pro sábado, ali pelos lados da Sorbonne mesmo. No sábado, zanzamos por ali, procurando lugares prá almooçar, até batermos num lugar simpático, em frente ao Panthéon (prá variar, esqueci-me do nome do lugar).

andré, federico et moi, devant le panthéon
Foi divertido, conhecemos Federico, um italiano que está no MIT, em Boston (very nice lad, very charming!), e trocamos todas as infâmias que bons amigos podem trocar quando passam algum tempo sem se ver. É uma pena que o gajo não tenha tempo prá dar uma paradinha e uma relaxada, de vez em quando (Betti lamentou que não pudéssemos ter mostrado nossa casa prá ele, essas coisas).
Por enquanto, pelo que sei, numa hora dessas, já está de novo na agitação, ou em Milão, ou em Bonn...
...mas um dia, a pilha dele gasta, e aí ele sossega um pouco, prá cervejar (que ninguém é de ferro.
Le Mois de la Photo
Queridos, o mês de novembro é o o "mês da fotografia", aqui na França (sempre é mês de alguma coisa de interessante na França), e as exposições não param de pipocar. Na semana anterior, havíamos visitado duas exposições dedicadas à fotografia, ambas no Orsay: uma, devotada às fotos de motivos fluidos, do Marey (basicamente estudos de movimentos de elementos, através de dispositivos), e outra, fenomenal, de Stieglitz, sobre a relação dele com a cidade de Nova Iorque e com a vanguarda artística, dos anos 10 e 20. Absolutamente fantásticas imagens de um fotógrafo que sabia o que havia de pictórico na foto, sem tratar esse assunto no plano de um fetiche: puxa vida, da próxima vez que tiver que falar destas coisas, vou logo projetar umas imagens dele, prá acabar com toda e qualquer conversa. Segue só um exemplo do que estou falando:

the city of ambition, 1913
...et à suivre...

soldado ed reagan, omaha beach, 6 de junho de 1944
Ainda no último sábado, Betti e eu atravessamos a chuva prá irmos ao site Richelieu da Bibliothèque Nationale (um lugar absolutamente delicioso, no 1er arrondissement), prá vermos a exposição do Robert Capa: uma hora na fila de espera prá ver, mas absolutamente compensadas pela qualidade do material; fotos que cobrem todo o período da (curta) carreira dele (de 1932 até 1954, quaqndo pisou numa mina no Vietnã, e morreu, quase instantaneamente), e também as revistas onde as mesmas foram publicadas (as melhores coisas do período, Vu, Life, Berliner Illustrite Zeitung, onde ele publicou a primeira matéria, sobre um comício de Trotsky, em Copanhague), depoimentos de colegas (Cartier-Bresson, Chim,
inter alia), além de extratos de um documentário que preciso encontrar em algum lugar,
Capa, in Love and War.
Absoluto.
terça-feira, novembro 09, 2004
...séminaires...
Hoje, de manhã, de novo no INHA, agora no seminário de Morizot, "L'Art de Définir l'Art", no qual farei uma intervenção daqui a quinze dias. Mas o ponto forte foi mesmo ao fim do seminário: fomos todos prum café na esquina, bater papo; os alunos são adoráveis e eram todos curiosos prá saber o que é ser professor numa universidade no Brasil e na Bahia.
O prêmio do dia foram os elogios pro meu francês e a possibilidade de discutir com eles, por antecipação, aspectos do texto que vou apresentar, inclusive com o próprio Morizot, que chegou um pouco mais tarde. Em certa feita, achava que estávamos num daqueles bate-papos depois das reuniões do colegiado do do DECOM, dando risadas e contando piadas (todas sobre assuntos acadêmicos, que é só do que estes estudantes falam aqui...).
A propósito, no dia que almoçamos chez Chateau, Paul, um doutorando que estuda a estética de Kant em seu doutorado (mas não parece, de tão pândego e divertido que é) virou prá mim e confessou, ao pé de meu ouvido: "o chato dessas reuniões é que a gente só pode falr de estética". Respondi a ele que, sendo eu brasileiro, poderíamos falar de futebol. Ele disse: "É mesmo? Onde é que vc. estava em 98?". Aí, fechei a cara e disse: "vamos mudar de assunto, certo?".
...séminaires...
Puta semana movimentada, esta!
Segunda, no comecinho da tarde, seminário na Societé Française de Photographie, no INHA (acho que já mencionei o lugar, super charmoso, num endroit mais charmoso ainda - o antigo site da BNF é pero de lá, algumas das passagens mais lindas da cidade estão lá), sobre "Culture des Images", com os dois editores
da Études Photographiques coordenando, então eu tinha que ir, já que quero publicar um texto na revista, até o final do ano que vem.
André Gunthert e Michel Poivert são dois jovens historiadores da arte (o primeiro ensina da École des Hautes Études, o outro na Paris 1, mas não em estética e sim, em história), mais jovens do que eu (estou ficando velho, mas isto é assunto para outro
post), e muito envolvidos em fazer da fotografia um assunto importante (sobretudo para os historiadores): Gunthert é autor de uma interessantíssima tese sobre a conquista da instantaneidade, na história da fotografia, no final do século XIX (cuja cópia vou pedir a ele, assim que terminar de escrever o diário, hoje), e Poivert escreve sobretudo a respeito do pictorialismo (corrente estilística da fotografia do mesmo período).
Pois bem, apresentaram os dois as linahs gerais do seminário, que na verdade será apenas uma receptáculo para a exposição de gente da turma deles, mas que terá algumas
séances bem interessantes: no dia de ontem, foi a apresentação de uma garota, Gaële Morel, que defendeu recentemente sua tese (na Paris 1, história da arte), sobre a questão da política dos autores, no fotojornalismo francês, a partir dos anos 70, e com muitas indicações interessantes para meu próprio trabalho de pesquisa sobre estilística no fotojornalismo (e com exploração inclusive dos aspectos jurídicos, complicadíssimos, da noção de autoria e de direito de reprodução, nas práticas das agências e dos fotógrafos).
Conversei com ela e com Gunthert sobre a possibilidade de consultar a tese e reproduzi-la: ambos concederaam-me esta possibilidade, mas advertiram que o xerox da SFP estava quebrado...resta-me descobrir se estas teses estão na BNF.
segunda-feira, novembro 08, 2004
...et, avant que je m'oublie...
Conversei nesta semana com Fresnault. Assunto: disponibilidade de uma visita à Bahia, duas semanas, prá cursos, palestras e encontros com os grupos de pesquisa do Programa. Resposta: disponibilidade total, especialmente no período das férias (as dele); firmamos as datas em setembro, a partir da segunda semana (um pouco antes, preparo a vinda dele com os interessados, introduzindo os textos e as idéias dele).
No mais, conversamos sobre muitas coisas, algumas profissionais, outras mais pessoais: como diz Bernard Darras sobre ele, eu também o qualificaria como um
sémiologue gentilhomme. Para quem foi orientando de Barthes, colega de geração de Baudrillard (ele, outro orientando barthesiano, todos de uma geração privilegiada), trata-se de alguém muito mais "na terra" do que se poderia esperar. Pensando na qualidade de nossa turma de colegas canadenses (outros que
cooperam conosco, e são figuras absolutamente doces no trato), diria que teremos muita sorte se conseguirmos nosso acordo com esta turma daqui (quero dizer, ficaremos com um tipo de interlocução que, além de muito qualificada intelectualmente, ainda tem enormes predicados, no plano pessoal).
São todos gente muito fina.
A propos de cooperações com a Paris 1, converso com Chateau ainda na semana que vem. Desconfio que eles estão interessados, mas o problema é o detalhamento do projeto pro CAPES/Cofecub, e a coisa da reciprocidade, que é sempre um capítulo complicado. Espero causar boa impressão a eles em minhas intervenções nos seminários.
Se alguém quiser ajudar, figas e rezas são bem-vindas.
Chez un Chateau à Paris
Sábado atrasado (quero dizer, duas semanas atrás), fui ter à Fontanay, prá assistir à primeira
séance do seminário post-DEA, coordenado por Dominique Chateau. Quem se apresentava era de Juan (esqueci o sobrenomedo sujeito, de novo), um jovem doutorando espanhol, orientando dele, que foi falar sobre o sentido moderno de representação pictórica, uma apresentação do que deve ser o trabalho da tese dele. Bem interessante, muito embora ele houvesse enfatizado os aspectos mais históricos do problema, por referência à caracterização baudelareana da modernidade.
Perguntei a ele se não faltava uma certa reflexão sobre o estatuto teórico da noção de represebtação pictórica (sobretudo os
rapports entre representação e percepção), de modo a chegar no problema que ele mesmo houvera definido, a saber: o desta experiência (tipicamente moderna) de vermos em Velázquez, por exemplo, os elementos que Monet vai recolher do barroco prá inventar o impressionismo (isto é, uma certa atenção à dimensão da plasticidade da representação).
Chateau não ficou atrás e também o interpelou, sobretudo no tema da insistência em associar o "modernismo" do século XIX com as posições revolucionárias, no campo político (ele contestou esta idéia, com os fatos históricos sobre as posições ideológicas de muitos dos modernistas, boa parte deles mais à "direita" do que se poderia supor).
Acho que já mencionei aqui que tenho "cercado" um pouco Chateau, desde nossa chegada à França, por algumas razões: em primeiro lugar, considero-o um interlocutor privilegiado de minhas teses sobre o lugar de uma reflexão estética, num campo como o da comunicação (ele não é um teórico específico do fenômeno, mas se mostra sempre muito sensível aos desdobramentos contemporâneos da estética, muito em especial às relações entre estética e comunicação); depois, porque é o diretor da École Docotorale, o que impica que as conversas sobre cooperação com o Programa passam, forçosamente, por ele (o que não é mal, pois ele é das pessoas mais '" tratáveis", tendo-se em conta a má-fama, por vezes justificada, dos intelectuais franceses).
Um parêntese aqui: antes que digam que a história da misantropia parisiense é invenção da oposição, tenho relatos (mais de um) de que algumas das pessoas que cultivamos no Brasil, como referência, são absolutamente insuportáveis no trato, e impossíveis de se alcançar, para a conversa mais elementar (perguntar as horas a algumas destas figuras, por exemplo, pode ser mais difícil que entender certos de seus textos). Falo aqui do que já ouvi dizer sobre Jacques Aumont, por exemplo, e que me desamina por completo em tentar qualquer
approach, prá conversar sobre disposição para uma visita à Bahia, pr'uma palestra, e quejandos (dizem que o sujeito é completamente esquisito, embora seja genial, teoricamente).
Enfin...
Não é meu caso com os poucos que conheço na rodinha que vou estabelecendo: Fresnault já me trata como "cher ami", já me pede que o
tuttoye (quer dizer, que o chame de
toi, o que é um bom sinal de aproximação e confiança). No caso de Chateau, terminado o seminário, convidou a todos nós (éramos uns quinze) prá um
happy hour (na verdade, um almoço),
chez lui; fiquei meio tímido, de início, mas ele insistiu que eu me juntasse a todos e, assim, lá fui eu, no meio da molecada dele, nos arredores de Bourg-la-Reine, um
banlieue pertinho de Fontenay, puxando conversa com um e com outro. Especialmente divertido.
Final de encontro, Chateau ainda insistia que eu levasse uma quentinha, com os restos do franco
epinée, mais o bolo de laranja.
Assez brésilen, je veux dire...
quarta-feira, novembro 03, 2004
La Dernière Ourse
mataram canelle, a última ursa marrom, na região dos pirineus: um bando de seis caçadores idiotas foram mexer com o filhote dela (ou melhor, parece que o cachorro deles farejou alguma coisa, e a mãe ursa, em defesa, matou o bicho). resultado: atiraram na última fêmea deste espécie.
"a última de uma espécie": engraçado este modo de se referir à morte de um ser, qualquer que
seja. a propósito, os franceses têm um sensibilidade que, por vezes, lança uma certa luz sobre algo que prá nós, bárbaros que somos, pareceria tão corriqueiro. aqui, foi pauta de todos os jornais, e inclusive com cobertura na televisão.
drôle, mais vrai.
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