Ontem, foi o dia do seminário do Fresnault, no DEA, lá em Fontenay ("Esthétique et Communication"). Prá variar, cheguei atrasado, de novo, e Pierre, em tom de piada, perguntou: "o atraso é prá vcs. brasileiros algum tipo de esporte?". Depois, bateu levemente no meu ombro (nunca ouvi falar que franceses fossem dados a este nível de enunciação corporal!!!) e me disse, baixinho: "não te aflijas, a aula ainda não começou, eu estava apenas te esperando".
A aula, como a outra que assisti, é muito interessante (tenho tido muitas idéias sobre como conduzir uma exposição de tipo mais teórico, à luz do estilo que adota para apresentar certos assuntos): desta vez, à propos de uma foto de Man Ray ("Le Violin d'Ingres", uma famosa, de uma garota nua de costas, tendo dois sifões de violino colados na altura dos rins), ele desenvolveu o tema da ironia e da colegem visuais, própria aos surrealistas, opondo o estilo do dadaísmo e do surrealismo, na fotografia, ao pictorialismo fotográfico do início do século XX, e suas idealizações sobre a artisticidade da fotografia.
Como já disse, tenho sempre a impressão, ao ver as aulas dele, do que poderia ser a experiência de acompanhar um Barthes falando sobre semiologia, na École des Hautes Études en Sciences Sociales: dá prá sentir que as questões que ele apresenta são muito interessantes, mas (pensando no que fazemos chez nous, à Bahia) penso que há um trabalho de metodologia a ser construído, para o qual este estilo de exposição ajuda muito pouco. Acho que ele tem muita cultura, mas pouco método: a cultura dele ajuda no propósito de decifrar as imagens, mas pouco ajuda no firmamento do que chama de sua "iconologia" (num sentido mais próprio que o e Panofsky).
Neste sentido, Chateau parece ser mais interessante do que Fresnault: por outro lado, entretanto, Pierre é o sujeito que está mais pregnantemente ligado às questões de meu grupo (terminei agora a leitura de seu capítulo sobre quadrinhos, em "L'Eloquence des Images" e é algo de muito especial).
Enfim, acho que teremos que levar os dois prá Bahia, de algum modo.
Depois da aula, vendi finalmente a timdez destes ?ltimos dias e encetei uma conversa mais demorada (deve ter durado uns 5 minutos), falando de meu interesse em intervir no DEA e no CRI e sobre os temas que tenho desenvolvido em minha pesquisa. Ele propôs que seria mais interessante que eu intervisse primeiro no DEA (com alguma questão mais pontual, e análise) e depois, no CRI (com algum problema de fôlego mais teórico), tudo isto em função dos públicos e cada um dos espaços. Propôs também que eu deixasse prá fazer isto no próximo semestre, pois seria mais proveitoso, inclusive prá ele.
Concordei, de pronto, e falei das idéias que tinha para a primeira intervenção, uma análise da fotografia, buscando identificar no nível de seu iconismo mesmo os elementos que lhe conferem o valor de testemunho das ações (em oposição às teses que inscrevem este valor, na fotografia, pelo aspecto do dispositivo tecnológico de base). Ele achou a tese interessante, e, prá minha surpresa, difícil de demonstrar: eu retruquei que certas vertentes da história a arte poem ajudar no problema, e ele acedeu, dizendo que "c'est vraiment une bonne question a explorer. bravo!"