Cite Universitaire, 25 de marco de 2004
Carte de Sejour-Mode de Emploi
Antes de mais nada, esta e' uma looooonga historia...
Queria poder escrever um pouco no espirito de quem oferece certas dicas (supostamente muito preciosas) pra alguem que esteja chegando numa cidade relativamente diferente da sua: outro dia, um vizinho nosso, um doutorando de Antropologia do Direito na Ecole des Hautes Etudes, tava dizendo que a populacao estudantil da cidade e' quase metade da populacao de Paris (o que explica um bocado de coisas, por exemplo, o maio de 68).
Mas meu maior assombro em relacao a este dado era o do volume de estrangeiros que ocupam a cidade, por um tempo consideravel (portanto, nao como turistas, mas como permanentes, em regime de sejour temporario, por mais de tres meses): e' muita gente, e e' muita gente pra' ser administrada por uma cidade. Falo isto porque ainda estamos enfrentando uma pequena via-crucis, para a obtencao da famosa "carte de sejour", que e' oferecida pela (ou, diria, disputada contra a vontade da) prefecture de police da cidade.
Quando chegamos a Paris, pensavamos nos, na nossa imensa ignorancia: bom, temos um visto de um ano, vamos 'a prefeitura, com as cartas que temos, o passaporte, e , voila', nossa carte de sejour em maos, pra' andarmos tranquilamente, fazermos o plano de saude sem sobressaltos, e por ai' vai.
Bom, Isa, como sempre, cuidou de nos desiludir sobre a natureza de nossa tarefa: em primeiro lugar, a prefeitura nao concede o tal titulo, mas vc. deve arranca-lo das maos dela, com os melhores argumentos e documentos que puder oferecer; segundo, o meu visto de estudante conflita com o que a Universidade de Paris 1 declara que eu vim fazer (o unico jeito de contornar a situacao sera' o de fazer minha inscricao no DEA da Universidade). So pra' se ter uma ideia, eu vim ensinar no DEA, e teria que me matricular neste mesmo DEA pra' que a prefeitura aceitasse minha situacao.
O caso de Betti era menos grave, pois ela vinha mesmo como estudante, sob apoio de um acordo entre as duas universidades,e isto poderia ser declarado por alguma instancia da Paris 8. Mas o meu era mais complicado: meu visto nao era de chercheur (pergunte ao consulado frances no Recife o porque), nao ha convenio da UFBa com a Paris 1 e, pra' piorar as coisas, o semestre letivo ja' esta' quase terminando (como e' que eles vao matricular alguem fora do semestre regular?). Ja' da' pra' ter uma ideia de qual era meu estado de espirito na quinta-feira, meu primeiro dia em Paris, um nitido dia de inicio de primavera (um pouco frio e ceu claro, com um solzinho, meu tipo de dia favorito).
Na sexta-feira, tomando cafe na casa de Isa, mandei tudo 'as favas, e disse: vou pra' Paris 1 agora, tentar encontrar alguem (Chateau, o diretor, ou Fresnault-Deruelle, meu orientador), expor a situacao e saber o que podem eles fazer: eram 10 da manha, e chegando la', nao havia ninguem. Sexta-feira, 11 da manha, Paris, Franca, Universidade, e nao havia ninguem, nenhuma alma viva pra' me atender. comecei a achar que estava numa comedia algo famliar e, por alguma razao, pensei comigo: "bem, as coisas nao parecem tao ruins assim".
Foi quando topei com a secretaria da Ecole, Madame Dupuy, uma senhora altiva, muito ciosa de si, mas que inisitia em nao entender patavinas do que eu estava falando (e, nesta altura, eu ja' estava tendo que me conter pra' nao rir), me conduziu pro bureau de acceuil international da Universidade, numa outra parte da cidade, pra' falar com uma tal madame Ferranis. Fui la'. Expus minha situacao. Mostrei toda a dezena de cartas e documentos que tinha. Perguntei a ela apenas: serao suficientes pra' eu ter o tal sejour? J'en voudrait beucoup!!!!
Madame Ferranis nao perdeu a classe. Leu meus documentos, impavida. Tornou-se pra mim e disparou: por que vc. quer ser "chercheur"? Nao vejo vantagem alguma nisto!!! Atonito (pensem bem, estou tentando controlar minha propria histeria, estou tentando controlar o frances, que ja' vai se misturando com o ingles e o portugues, e ainda vem esta e me diz que eu preciso ser estudante, como diz meu visa), so' me ocorre dizer: madame, eu sou profesor, no Brasil, e ja' nao vejo tambem grande vantagem nisto: so' quero saber como e' que faco vossa instituicao me reconhecer enquanto estudante, ja' que o documento que eu tenho de vcs. diz que virei aqui pra' ser chercheur, pas etudiant. "Tres simple", diz ela, "basta uma declaracao do diretor de tua Ecole, especificando o periodo de tua estadia e dizendo que vc. sera estudante em estagio pos-doutoral".
Como dizia o velho Paulo Francis, no fim de sua vida, "waal"...
Aprendi algumas coisas nesta historia toda: a primeira delas e' a de que pos-doutorado e' coisa que nao existe, ao menos aqui na Franca. Nao serve, por exemplo, pra' convencer nem o consulado a te dar um visto de chercheur (que me evitaria todas as aporrinhacoes, e que ainda nao acabaram); toda a diatribe que eu estou tendo pra completar o dossier pra prefeitura de policia seria driblada com um simples visto de pesquisador (mas o consulado somente concede este pro sujeito que, estando aqui, vier a receber salario das universidades francesas pelo seu trabalho). Pos-doutor mesmo, este nao e' nada.
Ainda bem que estou falando destas coisas quando elas melhoraram um pouquinho: uma semana atras, cheguei a achar que nao ia conseguir ficar aqui, sem sequer ter ido 'a tal prefeitura. mas isto e' outra historia...e com outras licoes atachadas pra' aprender. A suivre.