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sexta-feira, junho 25, 2004
Electropop
Mais um longo período sem escrever neste diário. As férias não são tão folgadas assim, e o trabalho das leituras vai se acumulando, até não termos tempo prá mais nada (nem mesmo prá alimentar o blog): um dia ainda falo sobre nossas rotinas diárias aqui nas luzes, só prá se ter uma idéia do quão pouco tempo temos...
Mas sempre há algum tempo prá divertir o espírito, também (e não apenas "musculá-lo", com livros): ainda outro dia, fomos ver um espetáculo final de uma escola de música na qual estudam colegas de Debby Growald (sobre a qual já falei aqui: foi ela que nos deu os bilhetes pro concerto do Nelson Freire e da Marta Argerich). Música eletroacústica: bem, é claro que ela era "acústica", pois toda música é (pois então, qual é o sentido de nomear como acústica a música?), mas era música eletrônica mesmo, tocada em consoles e sintetizadores.
Uma das alunas que se apresentavam era Maria Leon, uma venezuelana que conhecemos num almoço na casa de Debby, no dia da decisão em Roland Garros. Bela, a filha de Isa, tirou uma foto nossa, enquanto eu assistia o jogo: Maria é a da direita; no meio, está outra venezuelana, também música, Caribäe, taí a foto:
Pois bem, o espetáculo era uma série de apresentações dos alunos (na verdade, era uma etapa da avaliação de final de ano letivo), cada um deles apresentando suas pequenas composições, não mais do que 5 minutos prá cada, com poucas exceções.
Duas partes bem distintas: na primeira, bem radical, sons abstratos, na verdade, pequenas frações de sons, ondas hertzianas, combinadas em pequenos e estranhos concertos, que eu chamava de "música para insetos": imaginem um concerto de moscas, vespas, vagalumes, abelhas e pernilongos, todos metidos numa sala escura, apenas os sons deles passando pelo ouvido (era mais ou menos o que ouvíamos).
Na segunda parte, os sons eram mais identificáveis, ainda que editados eletrônicamente: barulhos de estação de trens, de ônibus, motorzinho de dentista, vozes transformadas por sons de água, o que sugeria (ao menos na parte incauta do público, moi y inclu) pequenas narrativas, do tipo "sujeito sai da estação do metrô, atravessa uma nuvem de insetos, pára numa fonte de água, e vai ao dentista, fazer um tratamento de canal".
Betti gostou muito: eu já gostei mais, hoje acho que só aprecio por curiosidade. De qualquer modo, depois do concerto, tivemos um pequeno buffet, que foi seguramente o melhor momento da noite. Voltamos prá casa, todos (eu, Betti, Tito e Debby) fazendo plinc, pow, bzzz, ronc, no metrô.
Divertido...
quarta-feira, junho 16, 2004
O dia em que a literatura moderna começou, passeando pelas ruas de Dublin
Saiu hoje, no Nouvel Observateur. Vejam só:
L 'Irlande célébre mercredi 16 juin le centenaire du "Bloomsday", la journée de Leopold Bloom à travers Dublin racontée par James Joyce dans "Ulysse", l'un des romans fondateurs de la littérature moderne pourtant rejeté à l'époque par la bonne société irlandaise.
La "Joycemania" touche désormais tous les continents et le "Bloomsday" à Dublin sera le point d'orgue de manifestations sur les cinq continents en l'honneur du grand écrivain irlandais, qui avait pourtant choisi l'exil pour fuir la pesanteur de la société irlandaise à l'aube du XXème siècle.
"Le soutien que nous avons reçu, ici et à l'étranger, est phénoménal", a assuré dans un entretien Laura Weldon, coordinatrice des festivités organisées à l'occasion du centenaire du "Bloomsday".
"Partout dans le monde, de la Chine, à l'Australie et à l'Afrique du sud en passant par l'Amérique Latine, il n'y a pas un endroit dans le monde où nous n'avons pas rencontré quelqu'un pour soutenir notre projet", a-t-elle ajout?.
En 1924, James Joyce, alors à Paris, écrivait dans son carnet: "aujourd'hui, 16 juin 1924, qui se souviendra de cette date ?".
Em São Paulo, quando Haroldo de Campos era vivo, o Bloomsday era religiosamente festejado, num pub irlandês: hoje, já não sei mais; dez anos atrás, quando começava meu doutorado, em São Paulo, presenciei esta festa, com meu exemplar do "Ulysses" debaixo do braço e algumas doses de Guiness na cabeça...

olhaí quem chegou em casa: segundo diz andré lemos, "agora sim, vcs. têm um computador" (o nosso é o de 12 polegadas, uma tetéia, 2 quilinhos, quase dá prá levar na carteira...). estamos apaixonados pelo nosso i-book, e não passamos nem um dia sem abaixarmos a cabeça, toda vez que passamos na frente dele...
Nosso primeiro incidente com as forças da ordem
Pois é, faz tanto tempo que não escrevia no blog, que acabei não lembrando de nosso primeiro encontro traumático com as forças policiais francesas. Ricardo Bittencourt, um ator baiano (ele era dos Catedrásticos), que trabalha com o Zé Celso (do Teatro Oficina, em São Paulo), amigo de Betti, estava aqui em Paris, semana passada, passando um tempo conosco (o Oficina fez uma turnée alemã, e ele resolveu dar uma pernada até aqui).
Pois bem, no sábado, saíamos nós mais ele e um amigo (também ator e diretor), na direção da Gare de l 'Est, prá resolver umas questões da volta dele prá Alemanha, quando entramos pela estação Chatelet do Metrô. Passamos eu, Betti e Ricardo na borboleta, mas o amigo dele ficou travado, porque o bilhete estava vencido. Tentou voltar na bilheteria prá comprar um bilhete novo, mas os guichês estavam fechados.
Eu e Betti, então, escolados que somos, abrimos uma passagem prá ele, pelo portão de saída, e íamos, serelepes, na direção da estação, sem suspeitar que havíamos sido filmados; chegando na linha do metrô, fomos parados por uns quatro fiscais, todos querendo nossos documentos e nossas cartas de metrô (só eu e Betti falávamos francês). Mostramos os ditos (eu e Betti saímos limpos, mas Ricardo não tinha posto a foto na carte orange dele, uma carteira especial de metrô, o que dava uma multa de 20 euros). Isto sem falar no outro, que estava sem bilhete mesmo (multa dele: 40 euros). Total do prejuízo: 60 euros.
Betti, prá não deixar de ser Betti, argumentava com os sujeitos, dizendo que Ricardo estava regular e que a falta do retrato pderia ser perdoada; uma policial mulher, nojentinha como poucos, argumentava que que ele nem deveria ter comprado a carte orange, se estava na cidade por pouco tempo (o que deixou Betti furiosa, porque Ricardo tinha comprado a tal carta por recomendação da funcionária do metrô, quando ele chegou a Paris). A cena era ridícula, e, num determinado momento (dada a nossa resistência em pagar a multa), parecia que íamos parar na Delegacia.
Eu só observava a cena e intervinha, de quando em vez, prá ouvir um "tête-toi" de um policial japinha ridículo (cheio de espinhas na cara...), até que finalmente resolvi pagar o prejuízo todo (eu era o único que tinha o dinheiro). Mas a melhor parte da história foi a final, quando já nos afastávamos do grupo sinistro, e a mulherzinha se virou prá nós, dizendo "fiquem sossegados, 60 euros não é nada, e vcs. só estão aqui de passagem". Betti, qual um centroavante, pegou a frase, e devolveu, na veia, em francês: "Já você, pelo jeito, vai passar o resto de sua vida enfiada nesta toca...".
Touché!
terça-feira, junho 15, 2004
Pina Bausch à rive droite
Como não andei por aqui na última semana, não pude contar que fomos ver, na sexta-feira, o último espetáculo de Pina Bausch. Na terça, Betti já havia pago o "mico básico" de quem chega no meio do calendário cultural da cidade, sem ter feito os devidos "abonements" dos teatros, e que é o de ficar na porta das salas, carregando um cartaz com os dizeres "cherche place". Ela já tinha feito o mesmo pro espetáculo de Anne Thèrese de Keersmaeker (e tinah conseguido um bilhete de graça), e, na última terça conseguiu dois bilhetes pro espetáculo de Pina.
Pois bem, na sexta, tocamos pro Theatre de Ville, à rive droite, prá assistirmos o dito: estávamos (melhor dizendo, eu estava) com uma certa prevenção, porque soube que era mais um daqueles espetáculos em que Pina toma uma cidade como motivo de suas criações (já fez isto com Lisboa, quando estávamos saindo de lá, até sobre o Brasil ela já dançou), e agora era Istambul; por outro lado, tratava-se de uma coreografia e três horas de duração (bom, eu fui educado pelo TranChan e pelo cinema, e acho pessoalmente impossível me aguentar sentado numa cadeira por mais de 45 minutos; por isto talvez me sacuda tanto nas reuniões do DECOM...).
Me enganei cosmicamente: o espetáculo foi simplesmente re-den-tor!!!! Em primeiro lugar, Istambul é só pretexto, só moldura, prá que Pina deixe os bailarinos livres prá fazer absolutas maravilhas, em termos de movimentação; o espetáculo é praticamente todo sustentado por solos e duos, o que valoriza o sentido individual da expressão pelo movimento. A primeira parte do espetáculo (uma hora e dez) é puro maravilhamento, são aquelas coisas que eu, pessoalmente, só vejo quando o Tran Chan dança, isto é, fluidez, clareza, coerência e humor. Particularmente gostei mais desta parte.
Na segunda, havia mais imagens, mais "theater" do que "tanz", mas também muito consistente e bem feito. A sequência final, com uma música de Tom Waits no fundo, está até agora gravada na minha cabeça, e me visita toda vez que vou dormir: uma imagem poderosíssima...Puxa vida, às vezes penso que se Betti estivesse num grande centro destes, criando o que cria, ela seria uma gigante da dança contemporânea, uma igual a Pina. Saímos os dois absolutamente emocionados, Betti especialmente feliz por saber que alguém como Pina pensa coreograficamente do mesmo jeito que ela (e com uma leve nostalgia da criação...).
Eu mesmo vivo dizendo a ela que, depois do doutorado, ela devia pensar em criar alguma coisa, prá ver o que saía: se a produção nào fosse algo de tão desgastante e absorvente, acho que ela estaria criando ainda agora...
De qualquer modo, Pina entrou definitivamente em meu Panthéon, com Betti lá em cima e Regine Chopinot um pouquinho mais embaixo...
Some Like It Hot
Puxa, faz muito tempo que não escrevo aqui (e não por falta de nouvelles): estamos em férias, mas o trabalho n'arrete jamais; semana passada fomos eu e Betti na CMU (Couverture Maladie Universelle), prá fazer nossos planos de saúde (é o plano do próprio Estado francês, bem mais em conta do que os privados, mas com muito mais obstáculos a superar, em termos de documentação). Deixamos os documentos todos lá e agora, é só esperar pela resposta: dizem que em quinze dias ela chega pelo correio...On vera!
Mas o assunto mesmo é que a primavera chegou com toda força aqui: ainda na quinta-feira passada, fez 28 graus...ÀS 11 DA NOITE!!!!!!! No fim de semana, corremos atrás de ventiladores, e quase não conseguimos encontrar, porque os estoques já estão quase esgotados, nas lojas da cidade inteira. Achamos um, num magazin perto da gare du nord, por 30 euros (façam as contas, e dá uns 120 reais, ulala). Já estamos com o dito em casa, funciona que é uma beleza, mas nossa professora de conversação, no espace lanues já disse que o mês de agosto é o pior de todos, com 42 graus: é justo o mês em que fecha a psicina da cité, já pensou?).
Acho qe teremos que pensar em um plano de fuga prá cote d'azur ou pro marrocos...
quarta-feira, junho 09, 2004

outra nossa, no mesmo lieu, só que d'autre coté, de frente pro palais: chique, n'est pas?

se meu sistema estiver funcionando direitinho, então somos eu e betti, no grand palais, bem nos champs elysées, na entrada de uma exposição de pinturas sobre carnaval ("la grande parade"). depois, eu digo mais sobre a dita (a exposição, né?)
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