Paris, capital do cinema
André já havia me advertido, mas é sempre bom saber das coisas por experiência própria: se tem alguma coisa que vc. vai pode fazer muito em Paris é ver filmes; filmes de todo tipo, de todos os lugares, para todos os gostos, em todo tipo de cinema (dos mais suntuosos e nababescos aos mais recônditos e improváveis). Só prá que se tenha uma idéia, o "figaroscope", que é um caderno semanal com a programação cultural da cidade, tem umas dez páginas com a programação de cinema da cidade. dez páginas!!!!!
Desde que chegamos, vimos muita coisa, isto é, no tempo que dá prá ter prá pegar um filme: pois bem, logo que chegamos, ganhamos da fundação kastler (uma fundação que ampara os pós-doutores na cidade nos trâmites burocráticos da chegada) uma caneca pro café, um guia da frança e dois ingressos na cadeia de cinemas da ugc. Como não sabemos quais salas estavam ligadas a esta cadeia (quem sabe, as salas de algum presídio...), estamos com os bilhetes na mão até agora (eles valem até o fim de julho, se não me engano).
Entretanto, nada disto nos impediu de ver filmes, nestas três semanas: fomos ver "agents secrets", com o casal 20 daqui (monica belucci - ai, ai - e o vincent cassell, um feio charmoso, feito todo francês que se preza), que eu escolhi prá treinar o francês: não entendi patavina do que eles falavam, mas como era filme, entendi tudo (repetindo: entendi o filme, mas não entendi os diálogos). Meio inverossímil: de saída, trata-se de uma ação sobre a espionagem francesa (ficção científica, portanto: espião francês? aonde? nem na argélia...). Bem acabado visualmente, mas é só. Esquecível, como 90% do que se vê em cinema hoje.
De francês mesmo, estamos loucos prá ver "Immortel", baseado numa trilogia de bande dessinée muito famosa aqui, "Nikopol", de um tcheco (se não me engano) Enki Bilal (que também dirige o filme. Ao que parece, o filme se baseia no segundo episódio da dita (tou tentando encontrar aqui, mas tá difícil): ele faz parte de um grupo de desenhistas que tem uma editora de quadrinhos, a "Les Humanoides Associés", e os materiais deles são bárbaros. Meu problema ? acompanhar o francês dito em filmes (mais ou menos como o das ruas, e bem diferente do das salas de aula, em geral infestadas de estrangeiros). mas veremos e direi o que achamos.
Outro francês que queremos ver é o último do Jean-Jacques Annaud ("Quest for Fire", "The Name of the Rose", "The Bear"), que se chama "Deux Fréres", e que é a história de dois tigres selvagens, irmãos, que são separados, de súbito, quando um deles é sequestrado e levado para um circo: neste, o francês não imporá, decerto, dificuldades (o Annaud é dado a este tipo de aventura, contar fábulas quase sem o recurso de palavras). Quero ver se o filme ainda estará em cartaz quando Bernardo vier, em julho, pois quero levá-lo prá ver.
Mas estava falando dos filmes que vimos: num cinema na Rue des Écoles, bem pertinho da Sorbonne, tá passando um festival de filmes do Elia Kazan, durante a semana: fomos ver, logo no primeiro dia, "On the Waterfront" (no Brasil era "Sindicato de Ladrões", e aqui ? "Sur les Quais"). Já vi milhares de vezes, mas coisas boas são assim, se renovam a cada nova espiada: ver o Brando no auge da forma física e dramática, em 1954, é muito bom. Até esqueci que tinho lá também prá ler as legendas e treinar leitura rápida (passou batido...).
Também estamos adorando ver documentários: bem no primeiro fimk de semana na cidade fomos ver "The Agronomist", de Jonathan Demme sobre um agronomista haitina, Dominique Baptiste, que virou radialista e um dos maiores símbolos da resistência democrática, na época do Papa e do Baby Doc. Um pouco sentimental, meio próximo demais da figura (o Demme era amigo do cara, levou anos filmando ele, além do mais o sujeito morre no meio do filme).
Tem um cineminha aqui pertinho, o Entrepot, que tem uma programação fantástica - vimos um documentário sobre o Derrida, de uns californianos doidos, e que narrava as desventuras do sujeito e da mulher dele na América, com algumas cenas dele dando aula, na França, em Nova Iorque na Califórnia. O sujeito é muito estanho, mas o documentário consegue extrair coisas interessantes dele. Vamos ficar atentos à programação deste lugar: na semana que vem, tem um filme sobre Chomsky e as media, ueba.
E ainda tem o último do Jarmusch, "Coffe and Cigarettes"...