O Belo Natural e o Belo Arquitetônico
Falei outro dia que, saindo da Sorbonne, no final de um seminário, dei de frente com o Panthéon, num final de tarde. Lembrei um pouco da impressão que eu sempre tenho quando vou ao Rio, e vejo aquelas montanhas de pedras e de árvores, e me dei conta das diferenças entre nós e eles. Na falta de melhor definição, pensei na idéia kantiana do belo natural e do belo artístico: porque, topograficamente falando, Paris é como Brasília, um grande plateau, vale mesmo é pelo que o homem coseguiu pôr, aqui e lá.
As diferenças com Brasília, de todo óbvias (sobretudo prá quem não gosta desta), são sobretudo duas: nossa capital foi feita prá ser um monumento e, além do mais, construída de uma vez só, enquanto tal; por outro lado, o caso de Paris já nem é mais de beleza, do ponto de vista arquitetônico, mas de sublimidade mesmo. Eu e Betti, outro dia, procurando uma loja de artigos esportivos, topamos com a Madelaine (pros que não sabem, um monumento laico, construído para a glória da República, por ordem de Napoleão). Quando vc. vê o prédio (que foi concebido como um templo grego), muito de perto, saindo da estação do metrô, a noção do que é grande ou do que é pequeno te escapa, por um momento. Na medida em que vc. vai se afastando (andando na direção de Concorde, por exemplo), e olha prá trás, as dimensões se normalizam, mas o templo fica agora mais parecido com uma pintura, posto à distância, meio irreal.
É só um exemplo, mas que se reproduz, a cada vez que eu chego perto de um destes marcos: o Panthéon, a Torrre Eiffel. O engreçado é que, aqui, este fenômeno se instaura sempre a partir de um motivo arquitetônico (ou artificial). Como dizia, quando vou ao Rio, vejo a exuberância da natureza, misqüindo-se com a arquitetura do lugar, tenho a mesma sensação de irrealidade desta visão (de perto, transbordando as noções de medida; vista de longe, parecendo-se com uma representação, um simulacro).
De qualquer sorte, é uma experiência de tirar o fôlego.