Fotos, Chateau e Vinhos
Ficou meio prá trás o relato da participação no seminário de Chateau: foi no dia 11 de dezembro (um século atrás), um sábado, em Fontenay, e dividi a
séance com um doutorando dele, que falou sobre um tema mais ou menos correlato ao meu, a questão do
poncif na pintura (em linhas gerais, é o problema das chaves de replicação de motivos e formas visuais, no universo do discurso das imagens: num dicionário de francês, "poncif" é sinônimo de "clichê").
No meu caso, falei sobre os fundamentos "teóricos" do exercício de análise que faço sobre a questão da rendição da ação no fotojornalismo, tratando especialmente da discussão de Wollheim sobre as "visões da representação", e de sua recusa em tratar a questão da fotografia enquanto constrita por este modelo de compreensão das imagens. Arrematei tudo com a imagem de Bradshaw, e com tudo o que ela suscita, em termos de composição e de senso narrativo.
Na hora das questões, Chateau tomou a frente e me perguntou primeiro se o que eu propunha era uma espécie de aplicação da iconologia à análise da fotografia: ato reflexo, respondi que sim, ao que ele replicou, esfregando as mãos, "bom, então tenho algumas observações a fazer...".
Parêntese rápido: Chateau abre seu livro sobre o iconismo (
Le Bouclier d'Achille) com uma crítica bem severa a Panofsky, notando que a questão da iconicidade passa ao largo dos tratamentos que sua iconologia oferece aos temas pictóricos.
Foi precisamente a partir deste ponto que ele começou a fazer suas observações e, ouvindo-as atentamente agradeci aos céus de haver lido previamente seu livro, prá responder em seguida que meu tratamento iconológico da foto não se restringia aos temas pictóricos que ela reproduz, mas também aos operadores icônicos dos quais os próprios temas se derivam (isto é, os aspectos composicionais da imagem). Enfim, conlcuí, se falo em iconologia, e se penso na herança do trabalho de Warburg, meu modelo mais próximo vem de Gombrich, e não de Panofsky.
Fim de história. Chateau acedeu, confessando sua simpatia pela perspectiva de análise gombricheana, e fomos desenvolvendo a discussão na direção do papel que as teorias psicológicas poderiam exercer para o tratamento de questões de história da arte (no que a conversa repercutiu certas leituras que tenho de Dominic Lopes, que ele também conhece).
Daí prá frente, as questões derivaram um pouco para os problemas do tratamento do fotojornalismo e de suas imagens, a partir de quadros próprios à reflexão sobre obras de arte (e sobre os perigos e reduções aí implicados, mas também sobre as vantagens de uma tal perspectiva).
Como havia sociólogos na platéia (o seminário era restrito aos doutorandos, o que significava que eram questões mais maduras e impregnadas de um percurso de pesquisa mais extenso), também tive que me haver com perguntas sobre o modo como os fotógrafos (sobretudo os fotojornalistas) constituíram uma espécie de rede (ou "campo", diria Bourdieu), no qual a questão do valor estético ou visual de suas obras poderia ser ajuizada. Comentei com eles sobre uma tese recentemente defendida em história da arte (em Paris 1), sobre a noção de autor no fotojornalismo francês dos anos 70, em que as questões estratégicas da atribuição de valores como "estilo" se impregnaram na produção fotojornalística francesa, a partir do surgimento de agências como a
Vu, associada ao
Libération.
Enfim, como da outra vez, terminamos a discussão num animado almoço
champagnard, só que, desta vez, não na casa de Chateau, mas nos fundos da Faculdade, regados a bons vinhos e champagne, equeijos, bonbons e outras coisas extravagantes. Mais uma vez, no fim do encontro, reiterei a ele meu propósito de que que conversássemos sobre a possibilidade de acordos, restritos à abordagem estética de materiais do campo mediático e acho que, desta vez, com minha exposição servindo de vitrine, ele pareceu bem mais animado com a possibilidade e com a necessidade de encontrar espaço em sua agenda prá isto.
Mas é claro que eu posso ter estado meio embriagadao, e tudo não passar de um breve, mas intenso entusiamo alcóolico meu...
va savoir.
et quoi du foot?
Bahia e Náutico não sobem, Vitória e Grêmio descem e, lá no Sul do Brasil, a piada já é que, na segunda divisão, teremos o Ba-Vi e o Gre-Nau...e nenhum clube do nordeste na primeira divisào, no ano que vem. Ça veut dire quelque chose, mais je n'ose pas dire quoi. Já o meu Cruzeiro...bem, como já disse, amanhã eu trago notícias da França, que c'est le meilleur à faire, honêtement...
à demain,
...et encore des nouvelles...
Como faz tempo que não escrevo aqui, fica a impressão de que nada acontece, o que não é verdade: me apresentei no seminário de Chateau, estive em Tours, trabalhando dois dias seguidos com Fresnault na revisão de meu texto no CRI. Mas estou meio sem tempo prá escrever, especialmente agora que o tempo vai ficando pequeno para a quantidade de coisas a se fazer (inclusive os preparativos da volta,
ah, a volta...). Amanhã, talvez, escreva um pouco sobre estas coisas.
Peut être...
Neige, Ho!
E, ontem, finalmente, nevou pela primeira vez, neste inverno excepcionalmente frio, em Paris. Como diz Fred, um funcionário da Maison, "neve de pobre", daquelas que mal dá prá sentir, mas que cobriram as ruas, ao menos por umas horas, de um veuzinho branco bonito de ver. Como tinha que resolver coisas na rua (enviar coisas pelo correio e comprinhas de natal), deu prá curtir um pouquinho a dita. Mas, de volta prá casa, umas duas horas depois, já era tudo água e barro...
Pabô...
Felipe do Bosque
Não havia comentado nada, mas Amaranta já está aqui, pro doutorado dela (chegou já tem um mês, um pouco mais que isto), na Paris 3: conseguiu ser liberada do ano do DEA, mas está frequentando os seminários, mesmo assim, e me perguntou se eu gostaria de "filar" alguns. Topei, pois queria saber o que estão fazendo alguns daqueles em que bato, em alguns de meus textos, sobretudo o Phillipe Dubois, que escreveu, no início dos anos 80, um livro que era meio que uma bíblia dos teóricos da fotografia (sobretudo os uspianos e unicampeiros), o
L'Acte Photographique.
Ele já esteve no Brasil, foi até à Bahia, dar uns cursos rápidos sobre teorias da imagem e imagens e novas tecnologias: na época (acho que era em 99), eu estava começando a montar meu grupo de pesquisa, e a achamos que o discurso dele era meio elementar demais (ficamos sem saber se ele
equalizou o repertório dele, prá não chocar a tigrada, nos trópicos, ou se aquilo era tudo o que ele sabia, mesmo). Ficou uma tal má-impressão que nem acompanhamos as sessões seguintes.
Mais tarde, relendo o livro dele (que existe em português) a sensação de desconforto se aprofundou um pouco mais, muito embora eu notasse que o livro representava meio que uma tendência generalizada das abordagens estéticas contemporâneas da fotografia, e que tem desdobramentos bastante extensos (a revista americana
October, por exemplo, é um dos lugares deste tipo de discurso que valoriza a indexicalidade como característica da arte contemporânea), para além do contexto intelectual francês. Nos anos 90, a
Critical Inquiry dedicou muitos de seus números a ensaios que advogavam esta espécie de transparência semântica da fotografia, e do qual o texto de Kendall Walton, "Transparent Pictures" é a visão mais acabada.
Graças aos céus, todo este discurso parece começar a cair em desuso, ou então a sofrer uma certa relativização. Por seu turno, Chateau, de quem me sinto bem próximo, tem uma visão bem ácida destas teorias.
Mas o fato é que o tal do Dubois é um sujeito muitíssimo simpático (tem uma leve semelhança fisionômica com Wenders) e, no primeiro dia em que assisti sua exposição (num seminário que tem por atraente título
Teorias das Formas Visuais), ele ia lá fazendo uma recapitulação das idéias de Panofsky sobre iconologia, prá servir de preâmbulo a uma discussão sobre algo de que ele ainda não falou (ontem, no segundo dia que frequentei, ele deixou a aula de aula prá comentar as monografias de projetos que foram apresentadas a ele, no início do semestre, prá distribuir os expositores, no calendário do anéee).
Bôf...
Semana que vem, talvez, ele confesse finalmente o que vai fazer com a iconologia.
Je serai là.