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terça-feira, dezembro 28, 2004

Fotos, Chateau e Vinhos

Ficou meio prá trás o relato da participação no seminário de Chateau: foi no dia 11 de dezembro (um século atrás), um sábado, em Fontenay, e dividi a séance com um doutorando dele, que falou sobre um tema mais ou menos correlato ao meu, a questão do poncif na pintura (em linhas gerais, é o problema das chaves de replicação de motivos e formas visuais, no universo do discurso das imagens: num dicionário de francês, "poncif" é sinônimo de "clichê").

No meu caso, falei sobre os fundamentos "teóricos" do exercício de análise que faço sobre a questão da rendição da ação no fotojornalismo, tratando especialmente da discussão de Wollheim sobre as "visões da representação", e de sua recusa em tratar a questão da fotografia enquanto constrita por este modelo de compreensão das imagens. Arrematei tudo com a imagem de Bradshaw, e com tudo o que ela suscita, em termos de composição e de senso narrativo.

Na hora das questões, Chateau tomou a frente e me perguntou primeiro se o que eu propunha era uma espécie de aplicação da iconologia à análise da fotografia: ato reflexo, respondi que sim, ao que ele replicou, esfregando as mãos, "bom, então tenho algumas observações a fazer...".

Parêntese rápido: Chateau abre seu livro sobre o iconismo (Le Bouclier d'Achille) com uma crítica bem severa a Panofsky, notando que a questão da iconicidade passa ao largo dos tratamentos que sua iconologia oferece aos temas pictóricos.

Foi precisamente a partir deste ponto que ele começou a fazer suas observações e, ouvindo-as atentamente agradeci aos céus de haver lido previamente seu livro, prá responder em seguida que meu tratamento iconológico da foto não se restringia aos temas pictóricos que ela reproduz, mas também aos operadores icônicos dos quais os próprios temas se derivam (isto é, os aspectos composicionais da imagem). Enfim, conlcuí, se falo em iconologia, e se penso na herança do trabalho de Warburg, meu modelo mais próximo vem de Gombrich, e não de Panofsky.

Fim de história. Chateau acedeu, confessando sua simpatia pela perspectiva de análise gombricheana, e fomos desenvolvendo a discussão na direção do papel que as teorias psicológicas poderiam exercer para o tratamento de questões de história da arte (no que a conversa repercutiu certas leituras que tenho de Dominic Lopes, que ele também conhece).

Daí prá frente, as questões derivaram um pouco para os problemas do tratamento do fotojornalismo e de suas imagens, a partir de quadros próprios à reflexão sobre obras de arte (e sobre os perigos e reduções aí implicados, mas também sobre as vantagens de uma tal perspectiva).

Como havia sociólogos na platéia (o seminário era restrito aos doutorandos, o que significava que eram questões mais maduras e impregnadas de um percurso de pesquisa mais extenso), também tive que me haver com perguntas sobre o modo como os fotógrafos (sobretudo os fotojornalistas) constituíram uma espécie de rede (ou "campo", diria Bourdieu), no qual a questão do valor estético ou visual de suas obras poderia ser ajuizada. Comentei com eles sobre uma tese recentemente defendida em história da arte (em Paris 1), sobre a noção de autor no fotojornalismo francês dos anos 70, em que as questões estratégicas da atribuição de valores como "estilo" se impregnaram na produção fotojornalística francesa, a partir do surgimento de agências como a Vu, associada ao Libération.

Enfim, como da outra vez, terminamos a discussão num animado almoço champagnard, só que, desta vez, não na casa de Chateau, mas nos fundos da Faculdade, regados a bons vinhos e champagne, equeijos, bonbons e outras coisas extravagantes. Mais uma vez, no fim do encontro, reiterei a ele meu propósito de que que conversássemos sobre a possibilidade de acordos, restritos à abordagem estética de materiais do campo mediático e acho que, desta vez, com minha exposição servindo de vitrine, ele pareceu bem mais animado com a possibilidade e com a necessidade de encontrar espaço em sua agenda prá isto.

Mas é claro que eu posso ter estado meio embriagadao, e tudo não passar de um breve, mas intenso entusiamo alcóolico meu...va savoir.


posted by Benjamim Picado  # 11:52 AM
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