Chez un Chateau à Paris
Sábado atrasado (quero dizer, duas semanas atrás), fui ter à Fontanay, prá assistir à primeira
séance do seminário post-DEA, coordenado por Dominique Chateau. Quem se apresentava era de Juan (esqueci o sobrenomedo sujeito, de novo), um jovem doutorando espanhol, orientando dele, que foi falar sobre o sentido moderno de representação pictórica, uma apresentação do que deve ser o trabalho da tese dele. Bem interessante, muito embora ele houvesse enfatizado os aspectos mais históricos do problema, por referência à caracterização baudelareana da modernidade.
Perguntei a ele se não faltava uma certa reflexão sobre o estatuto teórico da noção de represebtação pictórica (sobretudo os
rapports entre representação e percepção), de modo a chegar no problema que ele mesmo houvera definido, a saber: o desta experiência (tipicamente moderna) de vermos em Velázquez, por exemplo, os elementos que Monet vai recolher do barroco prá inventar o impressionismo (isto é, uma certa atenção à dimensão da plasticidade da representação).
Chateau não ficou atrás e também o interpelou, sobretudo no tema da insistência em associar o "modernismo" do século XIX com as posições revolucionárias, no campo político (ele contestou esta idéia, com os fatos históricos sobre as posições ideológicas de muitos dos modernistas, boa parte deles mais à "direita" do que se poderia supor).
Acho que já mencionei aqui que tenho "cercado" um pouco Chateau, desde nossa chegada à França, por algumas razões: em primeiro lugar, considero-o um interlocutor privilegiado de minhas teses sobre o lugar de uma reflexão estética, num campo como o da comunicação (ele não é um teórico específico do fenômeno, mas se mostra sempre muito sensível aos desdobramentos contemporâneos da estética, muito em especial às relações entre estética e comunicação); depois, porque é o diretor da École Docotorale, o que impica que as conversas sobre cooperação com o Programa passam, forçosamente, por ele (o que não é mal, pois ele é das pessoas mais '" tratáveis", tendo-se em conta a má-fama, por vezes justificada, dos intelectuais franceses).
Um parêntese aqui: antes que digam que a história da misantropia parisiense é invenção da oposição, tenho relatos (mais de um) de que algumas das pessoas que cultivamos no Brasil, como referência, são absolutamente insuportáveis no trato, e impossíveis de se alcançar, para a conversa mais elementar (perguntar as horas a algumas destas figuras, por exemplo, pode ser mais difícil que entender certos de seus textos). Falo aqui do que já ouvi dizer sobre Jacques Aumont, por exemplo, e que me desamina por completo em tentar qualquer
approach, prá conversar sobre disposição para uma visita à Bahia, pr'uma palestra, e quejandos (dizem que o sujeito é completamente esquisito, embora seja genial, teoricamente).
Enfin...
Não é meu caso com os poucos que conheço na rodinha que vou estabelecendo: Fresnault já me trata como "cher ami", já me pede que o
tuttoye (quer dizer, que o chame de
toi, o que é um bom sinal de aproximação e confiança). No caso de Chateau, terminado o seminário, convidou a todos nós (éramos uns quinze) prá um
happy hour (na verdade, um almoço),
chez lui; fiquei meio tímido, de início, mas ele insistiu que eu me juntasse a todos e, assim, lá fui eu, no meio da molecada dele, nos arredores de Bourg-la-Reine, um
banlieue pertinho de Fontenay, puxando conversa com um e com outro. Especialmente divertido.
Final de encontro, Chateau ainda insistia que eu levasse uma quentinha, com os restos do franco
epinée, mais o bolo de laranja.
Assez brésilen, je veux dire...