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terça-feira, setembro 21, 2004

It's Al True

Já devo ter dito em algum lugar deste diário (que às vezes tá mais prá hebdomadário) que gosto cada vez mais de documentários: aqui já vimos pencas deles, e cada vez queremos mais; vai ser difícil voltar pro Brasil e prá falta de opção de filmes por lá (mais que isto, falta de variedade de imagens, outros povos, outros jeitos de contar história, ce genre de truc-là).

Pois bem, vimos ainda na semana passada um filme sobre a vida do Allende, de um cineasta chileno (óbvio), residente em Paris, Patrick Guzmán, muito bom, e que provavelmente nem vai passar no Brasil (salvo em algum festival de documentários, como o "It's All True", lá de São Paulo).

Tem um outro filme que queremos ver, também sobre o Chile, mas este dedicado ao caso criado por aquele promotor espanhol contra o Pintochet: chama-se "O Caso Pinochet" e deve ser igualmente muito bom.

Desde que vi "A Day in September", aquele filme sobre o sequestro dos israelenses na Olimpíada de Munique, narrado pelo Michael Douglas e em clima de ficção de suspense, tenho me encantado coma capacidade dos documentaristas em desenvolver estes "catchers", no interior do gênero do documentário (logo que chegamos a Paris, vimos um documentário do Jonathan Demme, sobre um amigo haitiano, "The Afronomist", que tinha um uso muito legal da música como elemento de suspense).

E tem o caso inverso também, o dos documentaristas que viram contadores de histórias, como o Walter Salles (os "Carnets de Voyage" estrearam aqui, no dia 8, e fomos ver), que faz intervirem nas situações ficcionais pedaços do que poderia ser um documentário sobre a miséria andina.

Na sexta-feira passada, acho, no final da manhã, fomos ver outro documentário, este sobre Pierre Bourdieu ("La Sociologie Est un Sport de Combat"), também muitíssimo bom: divertido ver como as nossas rotinas acadêmicas podem se tornar objeto de alguma fascinação cinematográfica; tá tudo lá, reuniões de grupos de pesquisa, discussão com orientando, uma aula no Collège de France, sobre Goya, e, finalmente, um debate calorosíssimo com artistas militantes de uma comunidade de um subúrbiod e Paris, jogando duro contra Bourdieu e contra os sociólogos, em geral, e ele, reagindo à altura, denunciando o anti-intelectualismo como convite à apatia.

Saindo do cinema, do lado do Beaubourg, enquanto procurávamos um lugar prá almoçar, páro na esquina da Rambuteau, e, pegando Betti pelo braço, tenho tempo apenas de apontar com o dedo pr'um senhor (em seus 80 anos) que passava literalmente a meu lado, com uma senhora à cotê (uns 20 anos mais nova). Alguns segundos passados, Betti me olhando, perguntando sobre quem era que eu queria que ela visse, e só aí me lembrei de dizer:

- Você não viu? Era o Godard.

Jean-Luc Godard passou do meu lado.

E nem me reconheceu, ce putain-là.

Certas coisas só acontecem aqui.


posted by Benjamim Picado  # 1:08 PM
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