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quarta-feira, maio 12, 2004

Segundas e terças são os dias dos seminários: segunda à noite foi o do CRI, lá no Panthéon, finalzinho de tarde, e eu, prá variar, correndo feito doido prá não chegar atrasado, porque passei a tarde inteira lendo, e confiando que meu rélógio não estava atrasado. Mas estava.

Enfim, cheguei atrasado de novo...aqui, como na Bahia, vou firmando minha reputação de contumaz atrasado.

Mas a nota é que as exposições do seminário foram as melhores que vi, até aqui: primeiro, um garoto (garoto mesmo, se muito tem uns 25 anos) do DEA, que apresentava um trabalho sobre o sistema da construção das imagens em Rafael (não a tartaruga ninja, mas o renascentista): ressaltou o modo como as imagens dele respeitam a um certo princípio de repetição (ele chamava de "estereotipia visual"), e de que como este princípio orienta toda a lógica da produção rafealita, como uma espécie de prenúncio de uma lógica industriual de produção de imagens, baseada na replicabilidade de modelos visuais.

mostrou isto exibindo várias imagens de rafael, em que se verifica este efeito da redundância dos modos da representação fisionômica e expressiva das ações humanas; posições e atitudes (e mesmo traços físicos de aparência visual) que se repetem, não de modo discreto, mas como uma chave do discurso visual na pintura.~bateu com algumas coisas que já escrevi sobre o modelo da discursividade visual, tomando como exemplo a pintura maneirista e barroca (e, de fato, ele falava de um rafael proto-maneirista...). muito bom, mesmo.

Ressaltou também as técnicas de "montagem" do espaço da representação, como uma espécie e "assemblage" (colagem) de espaços distintos, seja prá criar o efeito retórico e visual da separação dos espaços (céu e terra, por exemplo), seja prá misquir o plano a representação com o plano da realidade (sobretudo na exploração das possibilidades integradoras da forma-afresco).

em seguida, veio um padre espanhol, muito douto e humorado, falar das linhas gerais de seu livro, "do corpo animado ao corpo presente": também legal, mas um pouco eclético demais, misturando muitas referências (ortega y gasset, nietszche, panofsky e peirce) prá defender uma tese que, a meu ver, é falsa: a idéia de que a arte contemporânea é indexical, por exibir os traços materiais da representação.

eu tinha um monte de perguntas prá fazer a ele, mas fiquei soterrado pela quantidade de referências que ele mobilizou: elas não me enganaram, mas eu fiquei sem saber por onde começar o rosário de minhas questões. depois, em casa, relendo o capítulo em que chateau fala sobre a indexicalidade em peirce, descobri onde mora o pecado desta gente: mas isto eu conto outra hora...



posted by Benjamim Picado  # 3:08 PM
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