Narrativas de Saint-Denis
Pois bem, o jogo em Saint-Denis: melhor dizendo, o jogo não, a experiência de Saint-Denis; sim, porque foi (pelas minhas contas), a quarta vez que frequento um estádio que foi sede de final de Copa do Mundo: Maracanã (é claro), Centenário de Montevideo (vi uma final de Libertadores, com o Cruzeiro e Boca, junto com meu velho, em 77, perdemos nos penaltis), Santiago Bernabeu (vi o Real levar um baile do Bayern, quando Bernardo morava em Madrid) e, agora, o Stade de France.
Que é, disparado, o mais bonito do quatro (disputando, palmo a palmo com o Bernabeu): super confortável, facílimo de acessar, cheio de serviços, só tem um defeito, poucos banheiros (passei o segundo tempo inteiro me abstraindo do fato de possuir uma bexiga, porque estava impossível esperar na fila durante o intervalo). saímos eu e betti daqui da cité e, sem trocar de linha, estávemos lá, em 20 minutos, meia hora no máximo. Chegamos uns quarenta minutos antes do início do jogo (impensável prá um evento desta natureza, se o jogo fosse no Brasil).
Quando saímos da estação "La Plaine", parecia uma cena de estádio brasileiro: uma avenida imensa, repleta de barraquinhas, vendendo churrasco (provavelmente, de gato francês...), umas tocando daniela mercury, outras alcione, e por aí ia, africanos e árabes à beça, com as indefectíveis placas "cherche place" (depois falo delas), até gente da "máfia azul" (era a minha torcida organizada em bhz, na floresta) encontrei lá (evidentemente, fui com minha camisa do cruzeiro...).
O estádio estava lotadíssimo, e dei graças a Deus e a Henrique (o vizinho daqui da Maison de quem comprei os bilhetes) e ter conseguido um lugar pro evento, com tão pouca antecedência (menos de um mês antes do jogo, um verdadeiro milagre, por 130 euros, os dois bilhetes). Os lugares eam ótimos, embora fossem na tribuna alta (era o último lugar, lá no alto do estádio, nem se eu me vestisse de baiana, as câmeras me encontrariam).
Como é evidente neste tipo de coisa, os brasieliros logo se agregam em algum canto do estádio e, por sorte ou azar, nós nos tornamos o centro da tal gravitação, de modo que a maior parte das vezes em que o brasil atacava, o som de torcida que se ouvia era o do nosso lado. No fim das contas, foi a parte mais divertida do jogo: enquanto os franceses gritavam "allez les bleus", nós retrucávamos "arretez les bleus"; na hora da marselhesa, nos intervalos do hino, gritávamos "à bastille, citoyens!"
O jogo mesmo não foi grande coisa, embora tenha sido melhor do que o que se ouviu nos comentários da imprensa: não era jogo prá alguém ganhar mesmo, os dois times estavam meio de "freio de mão puxado", mas valeu por algumas coisas. Zinedine Zidane é mesmo o melhor jogador do mundo, hoje, é impressionante como ele clareia o jogo, quando a bola vem prá ele.
Teve um lance, que todo mundo deve lembrar, na meia lua francesa, uns quatro brasileiros em cima dele, num rebote, ele mata a bola quase no ombro, ele vem cair no pé direito dele, e, antes de tocarem no chão (ele e a bola), ele faz o passe, no meio da marcação, e acha um francês livre, pronto pro contra-ataque (a coisa durou não mais do que uma fração e segundo, mas a gente via tudo como se fosse em câmera lenta, dava prá antecipar o lance). Quando o lance terminou, ficamos os brasileiros, feito bestas, olhando um pro outro, e eu pensei, comigo: putaquiupariu, e o Real Madrid, com um jogador desse, não consegue ganhar nem o campeonato espanhol?....
Disparada, foi a lembrança mais forte que vou guardar desta tarde...