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domingo, maio 30, 2004

Dois pianos na noite de Paris

Betti apanhou uma gripe forte na terça (fomos ao aniversário de Larissa, uma doutoranda do PPGAC, lá na casa de Isa), bebeu um pouco demais e, voltando prá casa, madrugada fria, se esqueceu de se colocar o cachecol, resultado: na quarta, já estava sem voz, com dores pelo corpo todo.

Ficou de cama os dois dias seguintes, mas entrou num tratamento intensivo, com muito chá de limão com alho, vitamina c, xaropes e anti-gripais, porque tínhamos dois bilhetes pr'um espetáculo, na sexta-feira, que simplesmente não poderíamos perder, de jeito nenhum.

Duas semanas atrás, Debby Growald, uma amiga nossa, concertista e coreógrafa, nos passou estes dois ingressos que ela tinha mas não poderia usar, porque levaria a mãe pro aeroporto, no mesmo dia: dois ingressos prá um concerto de dois pianos, com Nelson Freire e Martha Argerich. Repito: CONCERTO COM NELSON FREIRE E MATHA ARGERICH, e nós tínhamos os dois ingressos!!!! OOOhlala...

Na sexta, estávamos lá, com resto de gripe e tudo o mais, num teatro pequeno e lindíssimo, o Caveau, pertinho da estação Miromesnil, no 8eme. O programa era ótimo, sem ser muito eclético, mas com algumas concessões clássicas (uma variação de Schubert sobre Haydn, no início e um Schumann) e muita coisa moderna (sobretudo Ravel, com uma valsa e uma suíte), e outras coisas que não deu prá reconhecer (nem prá registrar, porque não tínhamos dinheiro pro programa, 8 euros).

No fim, a platéia simplesmente não os deixava sair, pedindo um bis atraés de outro: foram uns quatro, eu até perdi a conta, minhas mãos doiam no final, de tanto aplaudir.

Honestamente, não tenho muita experiência de música de concerto, embora goste muito, mas o ponto alto foi num momento mais suave do concerto de Schubert, em que eu me abstraí, por uns instantes dos dois no palco, prá olhar os rostos na platéia (estávamos numa posição muito favorável no teatro, perto do palco, mas na lateral, o que nos permitia ver os dois, mas também olhar prá platéia); fazia muito tempo que eu não me emocionava com feições humanas: um estado de concentração, uma variedade de expressões e de afecções, realmente uma coisa a não se esquecer.

Isto à parte, os dois são mesmo fenomenais: prá quem viu o documentário do João Moreira Salles, são os dois que ficam o tempo inteiro num quarto, atrás dos pianos, brincando e conversando sobre música e concertos. Ainda ontem, assistimos um outro documentário (este sobre Martha),no canal "Arte" com algumas imagens da juventude dela, igualmente fabulosas. Parecem dois seres completamente alienados da realidade ordinária, totalmente devotados ao que podem fazer musicalmente.

Já pedimos a Debby que nos ponha no circuito dos concertos da cidade: queremos ver tudo o de melhor, com ela...


posted by Benjamim Picado  # 6:15 PM
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